A vacinação é a maior conquista da medicina e da saúde pública de todos os tempos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, evita a morte de 2 a 3 milhões de pessoas por ano, em todo o mundo. Porém, a memória é curta, e as novas gerações já não se recordam das doenças horríveis, evitadas agora pela vacinação, que desfiguravam e matavam pessoas no tempo dos nossos avós.
Por isso, agora muitas doenças estão a voltar a surgir, e estão a morrer crianças sem necessidade. Lembram-se do surto de sarampo em Portugal, que aconteceu no início deste ano? Poderia ter sido evitado se não existissem pais a recusarem-se a vacinar os seus filhos.
Recentemente, numa das minhas cadeiras da faculdade, estudei este tema, e fiquei a pensar nas ideias erradas que muita gente, mesmo com elevados níveis de escolaridade, têm. Quero sempre acreditar que as pessoas informam-se sempre antes de tomar decisões importantes como vacinar os filhos ou vacinarem-se, mas depois leio coisas como estas e já não tenho tanta certeza. A verdade é que, apesar de toda a informação disponível hoje em dia, os movimentos antivacinação estão a ganhar cada vez mais dimensão. Acho que é importante sensibilizar a população, e desfazer alguns mitos para que, na hora de irem ao centro de saúde, tomarem decisões mais conscientes.
1. As doenças começaram a diminuir antes das vacinas, devido às melhores condições de higiene: Obviamente que ter boas condições sanitárias ( água potável, saneamento básico, controlo da cadeia alimentar...) contribuiu imenso para o controlo de muitas doenças infecciosas, nomeadamente aqueles que estão relacionados com a qualidade da água. Porém, isso não evita a circulação dos microorganismos causadores. Só a vacinação em larga escala consegue evitar as doenças alvo da vacinação.
2. As vacinas têm imensos efeitos secundários, que podem levar à morte: As vacinas, antes de irem para o mercado, são alvo de imensos estudos, análises e ensaios clínicos pelo que, quando são disponibilizadas para a população, são extremamente seguras. Comparadas com os medicamentos em geral, são ainda mais seguras. Além disso, o risco de uma criança ter uma reação adversa a uma vacina é muito inferior ao risco de uma complicação grave da doença que essa vacina previne.
3. Gastar tempo e dinheiro com vacinas para doenças que já não existem é um bocado idiota: As doenças evitáveis pela vacinação estão controladas e são cada vez mais raras. No entanto, salvo a varíola ( que já foi erradicada, e cuja vacina já é dispensável), todas as outras doenças ainda podem surgir ( mesmo em Portugal,onde têm pouca expressão). Principalmente, quando uma pessoa não protegida pela vacinação viaja para outros sítios onde certas doenças ainda não estão controladas e/ou se contactar com pessoas provenientes dessas regiões.
4. É melhor ter a doença do que vacinar com vírus atenuados: A doença causa imunidade, mas pode levar a complicações desastrosas ou até mesmo à morte. Por outro lado, a vacina desenvolve essa mesma imunidade, mas sem as complicações que a doença acarreta. Sim, é como se tivéssemos a introduzir um vírus no organismo, mas que foi atenuado através de passagens sucessivas em meios de cultura celulares.
5. As vacinas têm mercúrio, que pode fazer muito mal à saúde: As vacinas contém, de facto, mercúrio ( mais precisamente um composto, o tiomersal, que é um conservante do princípio ativo), mas em doses demasiado pequenas para constituírem risco para a saúde.
6.Ter gripe é uma coisa normal e, além disso, a vacina é fraca: A gripe pode ser algo leve que passa, mas também pode ser mesmo muito grave. Em alguns casos, pode levar a uma série de complicações, como pneumonia, sobretudo em idosos com a imunidade diminuída e a abortos ou partos prematuros no caso das grávidas.
8. A administração simultânea de vacinas pode sobrecarregar o sistema imunitário: A administração simultânea de várias vacinas não aumenta o as reações adversas, dado que a imunidade que cada uma estimula é independente. Além disso, no dia a dia, a imunidade dos bebés e das crianças já é estimulada por inúmeros vírus e bactérias com as quais elas contactam. O objetivo de administrar várias vacinas juntas é diminuir o número de "picadas", contribuindo para uma humanização e melhor adesão aos esquemas vacinais.
9. As grávidas não podem ser vacinadas: As grávidas podem ser vacinadas, mas apenas com vacinas com vírus inativado. Todas as vacinas com vírus vivos atenuados, como a VASPR ( que é a vacina contra o sarampo, parotidite e e rubéola) , e BCG, não devem ser administradas
10. A vacina causa autismo: O autismo é uma doença em que a idade do diagnóstico coincide, geralmente, com a idade de administração das vacinas. Em 1988, surgiu um estudo que inquietou muitas pessoas, por considerar uma possível relação entre a vacina VASPR e o autismo. Contudo, acabou-se por provar que não existi autor deste estudo foi obrigado a deixar de exercer Medicina, por graves irregularidades metodológicas e conflitos de interesses provados juridicamente. Apesar da coincidência temporal, não existe qualquer relação entre a vacinação e o autismo.
E vocês? Acreditavam em algum destes mitos?










