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25.11.20

A Internet era o meu escape, mas socorro, agora preciso de escapar dela!


No outro dia, dei por mim a olhar para o cursor a vaguear na barra de pesquisa por 5 minutos, sem pesquisar. Eu estava aborrecida, mas não me apetecia fazer nada de produtivo. Aquilo que me apetecia mesmo era desperdiçar tempo, deixar a mente devanear em algum sítio. Todavia, eu não sabia como o fazer. Eventualmente, abri o Facebook para ler, mais uma vez, a atualização de casos de Covid. Um mundo inteiro no computador, um que costumava entreter-me de mil e uma formas, e ali estava eu a ler as notícias. Era pior do que estar a trabalhar. 

A Internet de antigamente, que atingiu o seu auge em 2015 - the golden age para muitas plataformas, a blogosfera incluída - era um lugar seguro para partilhar desabafos, quer fosse a mostrar a  cara ou escondidos atrás de uma imagem do Tumblr (nos bons tempos em que este ainda existia) . E , sobretudo, era um lugar seguro para  estranhas, loucas e únicas experiências humanas, livres de algoritmos e da pressão das grandes companhias. Naquela altura, ninguém criava um blog, um canal de Youtube ou uma página de Tumblr para ser rico ou famoso - fazíamos isso porque era divertido, uma ótima forma de aliviarmos o stress do nosso dia a dia e de nos conectarmos com pessoas do mundo inteiro com um simples clique - ou alguns vá, ainda usávamos o Windows XP.  Para jovens que, como eu, eram tão tímidos nos seus anos de escola, a net era praticamente um escape. 

2015 foi um grande marco para o conteúdo digital. Pela primeira vez na vida, as marcas começaram a reconhecer o potencial dos internáuticos (acho que naquela altura o termo influencer ainda não estava em voga) para promover os seus produtos. Foi uma grande conquista dar o poder a pessoas ditas normais, de darem a sua opinião sobre os produtos e influenciarem o consumo, não nego, mas não sei se foi a partir de aqui que a coisa descambou para o que é na atualidade. Agora todas as plataformas são trabalho, uma forma de marketing e fazer render uma imagem de marca que tentamos a tudo o custo que se destaque no meio de milhões - em vez de ser uma comunidade de pessoas normais, ordinárias, com os interesses mais variados e aleatórios (e não aqueles que são socialmente aceitáveis).

Há uns anos, eu escrevi neste post que a blogosfera estava a passar por um período difícil. Contudo, nos últimos tempos tenho visto isto replicado em várias plataformas - "O Youtube estará a morrer?", o "Instagram estará a acabar"- e começo a achar que o problema não está só nas plataformas, está na net em geral, que se tornou demasiado uniformizada, monetizada e, por consequência, demasiado regulada. Tudo é controlado por algoritmos que deitam abaixo os criadores de conteúdo mais pequenos, sem qualquer poder de consumo. Tudo é controlado por companhias que censuram a Internet para a tornar supostamente mais familiar, mais clean, e mais politicamente correta. 

Com esta uniformização, existe milhões de conteúdo mais do mesmo. Até as apps são todas iguais: o Instagram, o Twitter e o Messenger pertencem agora todos ao Facebook, e estão a morrer com este último. Agora está também na moda o conteúdo rápido, que não dura mais de um minuto, algo que exponencia a quantidade de estímulos que recebemos de cada vez que ligamos o nosso PC ou browser e, por consequência, o overwhelming de informação. For God´s Sake, agora até guias no Instagram criaram para quem tem preguiça de ler blogs. 

Num esforço de reparar os nossos cérebros quebrados pelo saturação de informação, nós fazemos detoxes digitais. Desligamos os nossos telemóveis por um fim de semana, passeamos ao ar livre, recuperamos hobbies do tempo dos nossos avós como cuidar de plantas ou fazer puzzles e sabe tão bem! Porém, mais cedo ou mais tarde, temos que voltar ao mundo digital, porque a nossa vida já depende literalmente desta - e, inclusive, o nosso trabalho. E tudo continua o inferno que é atualmente. Sim, leram bem, a Internet de hoje é um verdadeiro inferno: nós já não estamos mais a partilhar ideias uns com os outros, estamos a gritá-las. Tanto que estamos a chegar a um ponto em que já ninguém consegue ouvir ninguém. 

Não sei se vocês sentem o mesmo, eu cá sinto-me tão cansada de tanto conteúdo. Passado 5 minutos já me sinto tão esgotada e sobrecarregada de informação que, esmiuçando bem, não me interessa para nada. Isto deixa-me frustrada. Eu quero continuar a consumir conteúdo e sentir-me inteligente. Eu quero usar o meu cérebro para absorver novas ideias, ler artigos, ouvir podcasts, ver vídeos, fotos magníficas... Mas como o posso fazer se todo o conteúdo se parece, bem, sem conteúdo nenhum?

A Internet está a ficar mais pequena, tantos algoritmos e regulações de empresas estão, a pouco e pouco, a matar a loucura e a diversidade que antes habitava em terras virtuais. As poucas pessoas que ainda têm paixão pelo que fazem- muito para além da paixão pelo dinheiro- estão a ter cada mais dificuldade em manter a cabeça à tona da água... É difícil andar continuamente a navegar contra a corrente, a criar algo pela diversão em vez daquilo que é potencialmente viral. A perder todo o feedback, apoio e companheirismo que antes se tinha. A mim este último é o que mais me custa - mais do que os números, eu gosto de ter opiniões concretas sobre aquilo que escrevo. 

Se estavam a perguntar-se porque é que desapareci do meu blog por mais de 2 semanas, bem, é por isto. Alguns podem estar a ler e a querer argumentar que parte da culpa é minha, que se calhar sou eu que não estou a conseguir adaptar-me  à mudança. Talvez seja verdade, talvez me tenha tornado como os idosos, que são incapazes de aprender a trabalhar com as novas tecnologias por mais que tentem; talvez esteja demasiado nostálgica e presa ao passado; talvez esteja a ter uma quarter life crisis aos 23 e esteja a redescobrir a minha identidade criativa. O que quiserem. Aquilo que sei é que a Internet se tornou, para mim, num mundo utilitário ao alcance dos meus dedos. Mas já não é mais divertida. 

Saudades dos tempos em que pensávamos que o Artigo 13 era a verdadeira ameaça... A Internet já tinha começado a sucumbir à censura sem nos apercebermos disso. Como usaremos a Internet como um escape, no futuro, se esta cada vez se parece mais com a "vida real"?

(Nota de final de post:  não, não vou desistir do blog. Esta publicação é apenas um desabafo. Escrever continua a ser uma parte intrínseca de mim e o Life of Cherry a minha casinha virtual.)

(Nota de final de post 2:  A edição de outubro da rubrica "5 coisas" vai sair junta com a de novembro. Com tantos turnos e - lá está - esta desmotivação adiei tanto até ao momento de já não ser aceitável publicar no dia 15. Portanto fazemos assim.)


 (Ilustração: Kate Sutton)

3.11.20

Ajustar as expetativas para os meses de Inverno (ainda em pandemia)

Ajustar as expetativas para os meses de Inverno (ainda em pandemia)

É cada vez mais difícil não usar superlativos para descrever este ano. 2020 tem sido o mais difícil, o mais desafiante e um dos piores que eu já vivi (não o pior, esse foi em 2013). E se eu digo isto, na minha posição privilegiada, em que até tido uma sorte tremenda - fui capaz de acabar o curso, arranjar emprego (also, numa profissão que terá sempre emprego nem que estejamos no meio de um apocalipse) e tenho todos ao meu redor de boa saúde, não imagino a dor daqueles cuja sorte não os favorece tanto. 

Já passaram 10 meses, e 7 destes foram vividos em pandemia. 2 deles em confinamento, os mais lentos a passar (juro que pareceu anos), mas de abril a novembro parece que passou tudo num piscar de olhos. 

Todos nós saímos desta quarentena com imensos desejos. Que iríamos passar dias sem parar em casa. Que iremos voltar a lanchar nos cafés de sempre com as nossas pessoas. Que voltaríamos às loucas festas de fim de semana. Que iríamos imensas vezes ao cinema. Que visitaríamos, beijaríamos e abraçaríamos todas as pessoas de quem tivemos saudades. Que iríamos viver da forma mais louca, mais do que nunca. Nada nos iria impedir. Todos nós acreditamos, queríamos acreditar que mal o confinamento acabasse tudo voltaria ao normal (até eu, que sou da área da saúde). Esquecemo-nos que, por muito que isso fosse o mais correto, nenhum país conseguiria estar em quarentena o tempo suficiente para o vírus desaparecer por completo.

Sinto que, nestes meses de verão, o grande problema das pessoas foi ajustar estas expetativas. Português que se preze glorifica o verão, e nada podia parar, nem no meio de uma pandemia. As praias estiveram cheias, os emigrantes regressaram na mesma em força, os bares e discotecas surpreendentemente estiveram em alta na mesma (nem com o seu horário de pastelaria - I guess que não estavam mesmo a brincar quando disseram "se tiver que me embebedar às 10 h da manhã é o que vou fazer"), os nossos feeds estiveram cheios de todas as saídas possíveis e imaginárias e, no meio disto tudo, as notícias de Covid ficaram escondidas lá bem no fundo. Com tanta alegria e sol não deu para notar, mas a pouco e pouco estávamos a fazer a cama do cenário que temos agora: quase 4000 casos por dia, mais do que tínhamos em abril. 

Espera-nos um Inverno difícil. Não vai voltar a haver uma quarentena (pelo menos, não com a dimensão temporal da primeira, que já nenhuma economia de nenhum país aguenta isso) para nos controlar. Temos de reajustar as nossas expetativas. Pensar naquilo que ainda podemos fazer em vez de naquilo que não podemos fazer - e não naquilo que queríamos mesmo fazer (e que sentimos que foi novamente retirado de nós), que não nos sentimos confortáveis a fazer (mas que queríamos fazer por pressão dos outros ou das redes sociais) ou não nos sentimos preparados para fazer. Acima de tudo, aceitar que as nossas rotinas de inverno, do Natal e do Ano Novo não serão as mesmas em 2020. 

Ainda existe muito "normal" nas nossas rotinas. Ainda vamos ter refeições saborosas no refúgio da nossa casa. Ainda vamos ter o conforto das mantinhas. Ainda vamos adormecer ao som da chuva. Ainda vamos sair para o trabalho e sentir o cheiro a terra molhada. Ainda vamos ter leituras aconchegadoras. No natal, ainda haverão luzinhas, filmes da Disney, doces e prendas (nem que as mesmas sejam entregues às distância). Só é preciso um bocadinho de mais esforço para encontrá-lo. 

16.8.19

"Família é família"- só se fizermos por isso!

"Família é família"- só se fizermos por isso!

Cada vez mais se fala sobre relações e todas as construções  relacionadas com as mesmas, que nos fazem ser e viver em sociedade. Apesar de dar a sensação que existem cada vez mais relações tóxicas e que se perderam muitos dos valores de antigamente, acredito que estes assuntos também são cada vez mais discutidos e há mais apoio. Debate-se relacionamentos amorosos, amizades, relacionamentos profissionais... Há, porém, algo que ainda parece ser intocável, e este algo chama-se família. 

A família é o único grupo de pessoas que não podemos escolher. Podemos escolher os nossos amigos, a nossa cara-metade, até os nossos colegas de trabalho, mas não podemos escolher os nossos familiares. É o que nos calha, tanto para o bem como para o mal. Nós não escolhemos estas pessoas que fazem parte de uma micro parte da sociedade que pode ditar muito daquilo que somos. 

Nós crescemos com  noções bem tortas daquilo que as relações familiares supostamente devem ou não ser. Principalmente, parece que todos nós herdamos um tradicionalismo denominado respeito mas que, por vezes, nada mais é do que estruturas de poder. O verdadeiro respeito é outra coisa. Sim, claro que devemos respeitar os nossos familiares, mas da mesma forma que precisamos de respeitar todas as outras pessoas. Respeito nunca pode ser algo unilateral, independentemente se são pais, filhos, netos... Respeito não pode depender de uma hierarquia, tem que ser cultivado com a mesma dedicação que nos outros relacionamentos. 

Acredito que se todos nós tivéssemos diálogos mais transparentes com a nossa família, atitudes mais genuínas e motivadas por amor e honestidade, muitas das relações familiares que vemos por aí não seriam tão tóxicas. Se tivéssemos o mesmo cuidado para os agradar como tentamos agradar os nossos vizinhos, amigos ou aquela crush, em vez de os tomar por garantido, porque "família é família", não seríamos tão infelizes na nossa própria casa.  

Aliás, o relacionamento tóxico mais aceite pela sociedade é o familiar, que pode destruir vidas, sonhos, afetos, e é impressionante como uma simples frase, "família é família", impede que tanta gente peça ajuda. Há pessoas que são maltratadas física e/ou psicologicamente, que vivem com familiares toxicodependentes, crianças que abdicam da sua infância ao assumir responsabilidades de adultos, entre muitos outros problemas que não aceitaríamos noutro contexto, mas como é no contexto familiar, "ah, problemas de família, normal". Nada disto é normal!

Não é porque é família que as pessoas não mudam, tanto para o bem como para o mal. Não é porque é família que as pessoas são obrigadas a compreender tudo o que pensamos, como pensamos. Não é porque é família que deixa de existir violência. Não é porque é família que o respeito é construído de forma unilateral. Não é porque é família que as pessoas são obrigadas a conviver. Não podemos construir uma relação unicamente baseada naquilo que é socialmente aceite. 

Crescer fez-me ver os meus familiares com outros olhos, não apenas como isso, com este "título",  mas como seres humanos, com as suas personalidades, ambições, medos, qualidades e defeitos, formas de pensar diferentes e objetivos diferentes. Não é nada fácil lidar com as diferenças (apesar de também serem estas que tornam a nossa "microssociedade" em algo tão vivo e dinâmico) e chocamos muitas vezes, porém esforçamo-nos para caminhar constantemente no mesmo caminho, mantermo-nos unidos, aprendermos uns com os outros, criarmos tempo para convivermos, divertirmo-nos juntos, e apoiarmo-nos sempre, nos bons e nos maus momentos, e até nas decisões com as quais, por vezes, não concordamos. Importamo-nos com a felicidade uns dos outros, e fazemos por isso, todos os dias.  Sei que, no entanto, nem toda a gente tem a mesma sorte que eu, e caso não consigam fazer o mesmo, abandonem, porque é o mesmo que fariam com qualquer pessoa tóxica na vossa vida, não é? 

Relações familiares precisam de manutenção como qualquer outra relação. Têm que estar em constante evolução, e isso só se verifica se dermos espaço para que isso aconteça. É nesta dinâmica que existe a verdadeira empatia. 

Por isso, vamos parar de  romantizar ambientes familiares tóxicos... Que tal romantizar antes o amor em constante construção?

27.7.19

Desculpa Instagram, mas remover os gostos não vai resultar


A remoção dos gostos no Instagram tem sido um tópico polémico desde abril, quando anunciaram que iriam começar esta experiência no Canadá. Passado alguns meses, agora em julho, a plataforma comunicou que vai expandir estes testes e apresentou uma nova lista de países que vão ser abrangidos pelos mesmos: 



A razão por detrás disso?


"Nós queremos que os vossos amigos se foquem nas fotos e vídeos que partilham, não no número de gostos que recebem. Ainda conseguem ver os vossos próprios gostos ao clicar na lista de pessoas que gostaram, mas os vossos seguidores não poderão aceder a esse número".

A minha opinião 


Na minha opinião, isto não vai resultar. Não me interpretem mal, eu sou a favor da ideia do Instagram. Já está mais do que na altura de fazer alguma coisa acerca desta competitividade doentia na Internet. Só não acho que este é o caminho. 

Remover apenas os likes não vai mudar drasticamente as coisas. Pelo menos, não para quem já está mais do que viciado nesta rede social. Deviam esconder o número de seguidores e, sobretudo, os gostos associados aos comentários. Sim, porque se formos pegar, por exemplo, numa foto de uma influencer, cada comentário tem centenas ou mesmo milhares de gostos.


E já que estamos a falar em influencers, eu sei que o Instagram não está preocupado apenas com a saúde mental dos seus utilizadores, também lhes dá jeito eliminar a competição para fazer com que os que ainda estão a crescer gastem mais dinheiro em publicidade na rede social.  Mas acham mesmo que vão conseguir parar as pessoas que fazem do Instagram a sua fonte de rendimento e que já se habituaram a adaptar-se a várias mudanças das plataformas? Eu nem percebo porque é que os influencers se estão a sentir tão ameaçados, se quiserem que as marcas continuem a trabalhar com eles , é só mandar uma screenshot do seu alcance (porque, sejamos sinceros, as marcas vão continuar a dar muita importância aos números).  E aqueles com verdadeira influência, com realmente bom conteúdo, não precisam de se preocupar.

É cansativo ver bloggers/youtubers mais preocupadas com os números do que com o conteúdo e, pior ainda, a dar dicas de "faz isto para ter mais gostos" ou "livra-te dessas fotos para conseguires mais likes". Existem tantos criadores de conteúdos bons que não têm metade do alcance, mas não é por isso que têm menos valor, aliás, eu até os admiro imenso por continuarem a produzir independentemente do que o as estatísticas dos outros mostram.  Também é cansativo  e frustrante ver pessoas incríveis que ficam com baixa autoestima por acharem que estão bonitas numa foto e depois não conseguirem gostos "suficientes".  É por isso que torço para que de futuro, o Instagram faça as mudanças que faltam para que isto realmente resulte. Se forem mais inteligentes e fizerem as alterações necessárias, o Instagram poderá voltar aos seus bons velhos tempos, os tempos em que se partilhava pelo simples prazer de partilhar com o mundo. Melhor ainda, talvez se torne numa espécie de Pinterest, com um bonito feed cheio de pessoas criativas que não se preocupam se são instaworthy ou não.

Numa cultura de validação já muito enraízada, vão existir diversas formas de contornar as "regras". Para criar um espaço virtual mais honesto e genuíno, vão precisar de ser muito mais radicais do que isto.


Qual a vossa opinião sobre esta mudança no Instagram? 

1.7.19

Todas as gerações depois da nossa são as piores gerações do mundo?

Todas as gerações depois da nossa são as piores gerações do mundo?

Se fizerem uma entrevista na rua a perguntar às pessoas o que acham de nós, millenials (porque estamos mesmo a dar nomes às gerações?!), irão responder-vos que somos narcisistas, que não não somos ambiciosos, que não nos dedicamos tanto ao trabalho, que nunca assentamos, que até colocamos em risco o próprio conceito de jantar como o conhecemos (jantar com a família toda reunida). 

Mas o que é que nós fizemos de tanto errado que as outras gerações fizeram? Após tantos anos, porque é que somos nós os culpados do fim do típico estilo de vida ocidental? Bem, em primeiro lugar, é preciso lembrar que estes "traços" não escolha nossa, mas sim força das circunstâncias. Se hoje em dia não temos tanto vínculo com o sítio onde trabalhamos é porque andamos sempre a saltar de emprego em emprego, não é como o tempo dos nossos pais e avós, em que nos reformávamos no mesmo sítio onde trabalhámos durante anos- se conseguirmos ficar 1 ano no sítio onde trabalhamos e tirar férias já é uma sorte. Se não assentamos mais, é porque não tempos estabilidade financeira para isso- não conseguimos nem comprar a nossa própria casa, quanto mais em pensar ter filhos tão cedo, aos 20 e tal anos (e além disso, e se nunca quisermos assentar?!). Se não jantamos mais em família, é porque muitos de nós saímos da faculdade tarde, temos dois empregos, ou trabalhamos por turnos. Se ainda vivemos à custa dos pais é porque, mais uma vez, não temos estabilidade financeira para sair de casa sequer.

Todas as gerações geram uma onda de estranheza nas gerações mais velhas. Até eu, com 22 anos, já sinto isso, ao ver que a gíria que os adolescentes de hoje (a geração Z) utilizam já é bastante diferente da que eu utilizava. Ai, poucos traços são tão marcantes no ser humano como a nossa total incapacidade em tolerar pessoas mais novas... 

Talvez isto aconteça porque está no nosso ADN temermos a mudança, e uma nova geração representa isso de uma forma bem direta. Talvez seja esse o problema que têm connosco, millenials e, também, já com a geração Z (não é por seres novos que também não ouvem já umas boas): representamos uma quebra em termos de hábitos, visões do mundo e valores diferentes daqueles que a anterior conhecia. Ao olharem para nós, lembram-se da sua própria juventude, e parece que agora é tudo mais fácil, que temos a vida mais facilitada, como se nós não tivéssemos dificuldades diferentes.

Existem gerações piores que as outras ou, ainda pior, estamos todas a ser cada vez piores? (muito "pior" numa frase, but you get the point). Não, mas parte da nossa natureza dizer "isto no meu tempo não era assim". Não tem mal em ser saudosista, é preciso é ter cuidados com as generalizações e olhar também para os próprios erros antes de apontar o dedo aos mais novos. 

25.6.19

Prendas de final de ano letivo: devemos premiar algo que é uma obrigação?


Há uns dias atrás li a seguinte afirmação no Twitter: "Prendas de final de ano letivo são só estúpidas. Porque vamos premiar algo que é uma obrigação?". Intrigada por este tweet, quis saber se esta era opinião geral e, por isso, perguntei-vos nas redes sociais qual era a vossa posição. Gerou-se uma discussão interessante (podem ler aqui) , com diversos pontos de vista que me fizeram refletir acerca da minha própria posição- sou a favor, mas depende.

Porquê, perguntam vocês? Antes de dar uma prenda, é preciso ter em consideração alguns fatores, como a idade da criança/jovem, o contexto e o tipo de prenda que se quer der. É importante que a prenda nunca ofusque aquela que deve ser a motivação principal, o sucesso escolar. Cair na velha chantagem "se tirares boas notas dou-te isto" só vai criar adultos irresponsáveis, que não sabem distinguir entre direitos e deveres.

Sinto que, com bens materiais, é muito difícil que os filhos, de forma consciente ou inconsciente, não acabem por cobrar mais aos pais e acabar numa forma desta chantagem invertida, tornando-se numa exigência que deve ser cumprida todos os anos. Houve alguém nas redes sociais que sugeriu premiar  com experiências e, de facto, é o caminho mais sensato para fugir a este problema.  Já cheguei a receber alguns presentes de transitar de ano mas, pessoalmente, aqueles que mais me marcaram não foram coisas materiais, foram experiências, como viagens com a família ou lanches com amigos. Houve ocasiões em que o fim do ano letivo foi usado como desculpa para comprar algo que precisava, como uma peça de roupa ou uns óculos de sol, ou até mesmo um miminho mais supérfluo (presentes que pelos quais me sinto agradecida na mesma, obviamente), mas são coisas que, passado algum tempo, não têm tanto significado como uma celebração, por mais pequena que seja, para assinalar mais uma etapa, em que se fazem diretamente elogios sobre o trabalho feito e toda a dedicação depositada nesse trabalho. 

As principais regras de ouro são, portanto, na minha opinião, evitar dar bens materiais a não ser sejam baratos ou que seja  algo absolutamente necessário (pontos extra se estes bens forem relacionados com o estudo), não haver um acordo prévio (ou seja, não prometer nada aos filhos),  e, sobretudo, não fazer qualquer tipo de suborno. Se se souber respeitar estas regras, não há mal nenhum e dar uma gratificação a quem, de facto, soube cumprir bem os seus deveres. 

Estudar, é sim, uma obrigação, e ninguém pode fazer isso por nós, mas porque não festejar- ainda que de forma simples, não vamos andar a fazer uma festa de formatura todos os anos- cada passo dado naquele que é um longo percurso académico? Há quem diga "ah, quando começarem a trabalhar ninguém os vai elogiar, recebem o salário e o resto é acordar, trabalhar, comer e dormir até morrer". Não é bem assim. Não se sentem muito mais motivados quando são reconhecidos por aquilo que fazem, quer seja por um cliente numa loja ou por um paciente num hospital? Além disso, em muitas empresas, os trabalhadores trabalham por objetivos, e em cada objetivo atingindo recebem um incentivo. Porque não fazer o mesmo enquanto estudamos? 

Celebrar as pequenas vitórias importa, quer seja passar de ano,  um 90% no teste de Português ou uma apresentação de trabalho excecional. Talvez seja este o incentivo que falta a muitos estudantes que, hoje em dia, se sentem desmotivados a exigência cada vez maior do ensino e a falta de perspetivas de emprego. 


Qual é a vossa opinião? São a favor ou contra às prendas de final de ano letivo?

22.6.19

Acho que estou a falar por todos quando digo...

"Acho que estou a falar por todos quando digo..."

Sabem aquela frase que as pessoas costumam usar "Eu acho que estou a falar por todos quando digo...". Não é nada de novo, mas eu acho que os grupos pelos quais assumimos falar estão a crescer em número e em diferença. As pessoas estão a tentar falar por todas as outras do seu género, do seu partido político, da sua cultura ou com determinada doença. Eu própria já fiz isto várias vezes, uma tendência que estou a tentar contrariar.

Parece ser inofensivo, dizer isto não muda nada. Não impede as pessoas de seguir a nossa opinião se não concordarem. Afinal de contas, mesmo que nós tentemos sempre falar por toda a gente, nunca o conseguiremos. Todos nós temos um vontade e voz própria. Então, porque é que isto importa?

Porque os nossos pensamentos e palavras são poderosos o suficiente para mudar a perceção dos outros. Têm o poder de fazer os outros mudem de opinião, de fazer com que acreditem que todo o grupo pensa da mesma forma (mesmo que não pense). E se a nossa "bolha" acredita em algo, porque não acreditam os outros também? Torna-se mais difícil de entender quando os outros não concordam connosco, faz-los sentir os outsiders em vez de apenas diferentes e singulares.  As afirmações de grupo não só tornam determinado tópico "preto e branco", como muda as nossas ideias sobre esse mesmo tópico.  De repente, existem maneiras erradas de ser uma mulher, ou maneiras erradas de ser uma pessoa portadora de uma doença, ou maneiras erradas de ser uma pessoa no geral. 

Pôr indivíduos numa caixa nunca ajuda ninguém. Não ajuda quem estamos a colocar nessa caixa nem nos ajuda em nada ter essa atitude perante os outros. Temos que começar a aceitar que todos nós somos diferentes, mesmo aqueles que são mais semelhantes a nós. Aqueles que fazem parte do nosso partido político podem, ainda assim,  ter crenças diferentes. Aqueles que são portadores da mesma doença que nós podem ter outros sintomas, experiências e dificuldades diferentes. Os nossos amigos podem pensar de maneira diferente num determinado tema mesmo que, em muitos outros aspetos, pensem da mesma forma que nós. 

É frequente indivíduos porem-se no papel de porta-vozes dos seus grupos mas, vamos ser honestos connosco próprios, ninguém pode assumir com todas as certezas o que estes pensam. 

20.4.19

5 tradições curiosas da Páscoa pelo país e pelo mundo

tradições curiosas de Páscoa pelo país e pelo mundo

Como já confessei várias vezes aqui no blog, não ligo muito à Páscoa. Para mim, o Natal tem muito mais encanto. A Páscoa não passa, portanto, de mais uma desculpa para passar tempo em família e comer chocolates até estar ali quase a roçar na hiperglicemia (por falar nisso, ainda vamos a meio das festividades e eu já perdi a conta ao número de bombons, Ferrero Rochers e amêndoas que já comi, temo não sobreviver até segunda). Com o passar dos anos, para tornar a minha Páscoa menos monótona, tenho ganho cada vez mais interesse nos costumes de outras regiões, e existem algumas bastante curiosas.

Para fazerem uma pausa no enfardanço ou para, pelo menos, não ser a única coisa que estão a fazer (só para dizerem que estão a fazer alguma coisa de produtiva, your welcome), embarquem nesta viagem de tradições de Páscoa comigo.


1. Procissão do Senhor "Ecce Homo": Como boa bracarense que sou, não podíamos começar a lista sem referir aquela que é, na minha opinião, a melhor procissão da Semana Santa em Braga. Organizada desde tempos antigos pela Irmandade da Misericórdia, a Procissão do Senhor "Ecce Homo" evoca o julgamento de Jesus, ao mesmo tempo que celebra a misericórdia por Ele ensinada. O grande destaque da procissão (e o grande motivo pelo qual é a minha favorita) são os farricocos com as suas grosseiras vestes de penitência, descalços, encapuçados, de cordas à cinta, uns empunhando matracas e outros alçando fogaréus (taças com pinhas a arder), sendo estes últimos a razão pela qual também chamam a esta procissão "Procissão dos Fogaréus".



2. Queima do Judas: Ainda em Portugal (antes de avançarmos para  outras regiões do mundo), temos a "Queima do Judas" em Montalegre, em que a tradição religiosa é aliada a momentos de sátira e humor. A "Queima de Judas" consiste na queima de um boneco de palha para expressar a luta contra o mal. O fogo é utilizado como símbolo da luta do homem contra as trevas.


3. Páscoa ou Halloween?:  Quem cair na Finlândia de pára-quedas não sabe se está a festejar a Páscoa ou um Dia de Bruxas muito atrasado. Neste país,  assemelha-se muito ao dia 31 de outubro. As crianças saem à rua vestidas de bruxas na véspera da Páscoa, com ramos de flores para celebrar também a chegada da primavera. Visitam os vizinhos e deixam cartões decorados, pedindo doces ou dinheiro (em vez do típico "doçura ou travessura"). 



4. Bilbies everywhere: Em todo o mundo, um dos símbolos mais famosos da Páscoa são os coelhos. Na Austrália, o animal é outro. O povo australiano substituiu o tão conhecido coelho por um animal típico do país, o bilby, e não, não ée para se armarem em diferentes, há uma razão educativa por trás. Esta espécie encontra-se em vias de extinção e, desta forma, para sensibilizar as crianças para a defesa dos animais, os supermercados e lojas enchem-se de bilbies de chocolate por esta altura do ano.



5. Ovos vermelhos: Outro dos símbolos famosos da Páscoa são os ovos multicoloridos. Contudo, na Grécia encontrarão apenas ovos vermelhos. Lá, a tradição manda que, na quinta feira santa, os ovos sejam cozidos e pintados com esta cor. Estes ovos têm um monte de simbolismos. O vermelho representa a cor da vida, mas também representa o sangue de Cristo derramado por nós. Quando os ovos são rachados e os seus interiores revelados, isto simboliza a Sua Ressurreição. Esta tradição também também tem um lado mais divertido, que envolve uma brincadeira na qual a pessoa pega num ovo, bate na extremidade dos ovos uns dos outros, e aquele cujo o ovo não rachar ganha. 
  


Quais são as tradições que acharam mais curiosas? Conhecem mais algumas que acrescentariam à lista? 

19.4.19

Porque é que eu continuo a consumir Fast Fashion (embora seja errado)

Porque é que eu continuo a consumir Fast Fashion (embora seja errado)

Já não há forma de negar. A indústria da moda é uma das maiores responsáveis pela poluição do planeta. Salários baixos e a escravatura também são grandes problemas causados pela mesma, principalmente pela Fast Fashion. Para quem não está familiarizado com o termo, Fast Fashion significa um padrão de produção e consumo no qual os produtos são produzidos, consumidos e descartados de forma rápida sendo que, para que a produção destes seja possível, há enormes consequências para o meio ambiente, nomeadamente um enorme desperdício de água e libertação de dióxido de carbono.

E, ainda assim, mesmo tendo consciência de todos estes factos e preocupando-me bastante com o planeta, a maior parte do meu roupeiro é composto por peças derivadas da tão odiada Fast Fashion. Estas são as razões que justificam este comportamento  pouco consciente, à primeira vista.


1. É mais barata e, muitas vezes, a única opção: Este é um dos maiores problemas que empurra as pessoas para consumir Fast Fashion. Se tivessem a receber o salário mínimo, o que é que escolheriam, comprar uma camisola de 100 euros numa marca ética ou comprar a mesma camisola na Primark por 5 euros? Pois. Sim, acredito que investir dinheiro numa camisola dessas vale a pena, mas também reconheço que nem toda a gente tem possibilidades para isso - há quem nem tenha dinheiro para comer. Eu tenho o privilégio de ir comprando algumas peças de roupa desta marcas de vez em quando, mas não posso fazê-lo sempre, tenho que poupar para outras coisas que considero mais prioritárias.

2. Está em todo o lado: Sabem quantas marcas sustentáveis eu encontro em Braga? Umas três ou quatro, se tanto. Já lojas como a H&M, Zara e Primark eu encontro praticamente em todas as ruas e centros comerciais. É difícil comprar roupas com "etiqueta verde" quando estas ainda são tão inacessíveis. A mudança não tem de partir, portanto, só de nós ,consumidores, mas do mercado, que tem que parar de promover tantas lojas Fast Fashion e dar oportunidade a outro tipo de lojas.

3. Dou muito uso às peças de roupa: Eu não sou aquele tipo de consumidora que compra algo e só usa em determinada estação. Muita da roupa que tenho dura anos, mesmo aquela que me diziam que, por ser de marcas baratas, iria estragar-se depressa. Sim, continua a ser mau eu comprar nestas marcas, mas se eu comprar pouco e em intervalos de tempo grandes, o mal é menor. A Fast Fashion é algo que planeio, no futuro, cortar completamente da minha vida, mas enquanto tal não é possível aquilo que eu posso fazer é comprar cada vez menos e dar bastante uso aos poucos produtos que adquiro.


E vocês? Continuam a consumir Fast Fashion ou só recorrem a marcas sustentáveis? Consideram que é possível eliminá-la por completo das nossas vidas ou que isso é apenas um privilégio dos mais ricos?

15.4.19

Notre Dame, Tu Nous Manque Déjà


Tinha uma publicação agendada para hoje, mas não a consigo publicar dado o que aconteceu esta tarde. Nada do que publique esta noite vai distrair-me a mim ou a vocês do facto de hoje se terem perdido mais de 800 anos de História, num piscar de olhos. À hora que vos escrevo, o Governo já admitiu a possibilidade deste icónico monumento não poder ser salvo e ruir completamente.

A vida está a imitar a arte da pior forma: a Catedral também pegou fogo no filme "A Corcunda de Notre Dame", e aquilo que mais me consolava em criança era saber que esta cena era ficção e que, na realidade, a Catedral de Notre-Dame continuava em pé, grandiosa como sempre Hoje, no dia 15 de abril, esse pesadelo concretizou-se, e os nossos sonhos de criança estão a arder junto com este património histórico. 

Não consigo ver mais notícias nem imagens da Catedral de Notre-Dame a arder. Está a ser devastador! Nunca a vi ao vivo, mas quero recordá-la como na imagem acima,  em toda a sua opulência. Notre Dame, Tu Nous Manque Déjà

16.1.19

Mentir: um mau hábito ou parte da natureza humana?


Quando pensamos em mentirosos, pensámos imediatamente em políticos corruptos, banqueiros desonestos, parceiros infiéis, e muitos outros tipos de pessoas que categorizamos automaticamente como "má pessoas", que estão separados de nós pela sua impreterível habilidade de mentir para seu próprio benefício. Porém, a realidade é ainda mais cruel: todos nós somos capazes de o fazer e, muito provavelmente, todos nós o fazemos.

Toda a gente neste mundo já mentiu, pelo menos uma vez. E quem estiver a negar isto agora acabou de se tornar num mentiroso. Todos nós temos uma tendência natural para o fazer, de modo a usufruir dos benefícios que resultam desta ação. Mas porquê é que mentimos, afinal? Não estamos fartos de ouvir, desde pequenos, que "a mentira tem perna curta"? Que mentir só piora as coisas, e os que riscos ultrapassam os benefícios?

Uma das razões pelas quais os seres humanos mentem é para se safarem de situações que, provavelmente, não se safariam se dissessem a verdade. Muitos de nós já ocultamos o número de pessoas que vão a determinada festa para os nossos pais nos deixarem ir. Já dissemos que acabámos os trabalhos de casa só para poder ver TV. Todos nós já mentimos para tornar a nossa vida mais fácil.

Outra das razões pelas quais as pessoas mentem é por causa da aceitação. Toda a gente já desejou ser amado por todos. Ser aceitado é algo muito importante para muitos, e algumas pessoas vão até aos extremos para tal acontecer. Estas pessoas pensam que mentir vai fazer com que se tornem mais interessantes. Este tipo de pensamento é perigoso, porque pode resultar na perda de identidade.

Contudo, nem sempre mentir é algo necessariamente mau. Há ainda uma terceira razão pela qual os seres humanos mentem. Para se safarem a si mesmos ou aos outros de situações adversas e potencialmente destruidoras da sua felicidade. Imaginem que vivem num regime em que ser homossexual é crime e punido por morte. Se fossem homossexuais, diriam que o eram? Ou se tivessem um amigo vosso que tivesse essa orientação sexual, denunciá-lo-iam? Provavelmente, mentiriam.  Pode parecer uma decisão deliberada (e é, de facto), mas acredito que isto faça parte do nosso instinto de sobrevivência, mentir para nos protegermos e proteger aqueles que amamos.

Então afinal, mentir é um mau hábito ou faz parte da natureza humana? As duas coisas. Quer queiramos quer não, mentir está enraizado na nossa sociedade, na nossa cultura, na natureza humana. Mas também é um hábito perigoso, se não controlado. Todos nós mentimos, mas a extensão das nossas mentiras, o seu propósito e os meios utilizados é que as tornam boas ou más. 

27.11.18

Façam alguma coisa agora ou fiquem sem Internet para sempre


O meu blog é a minha segunda casa , e é um projeto que estimo muito, com todo o coração. Se o Artigo 13 for para a frente, este pode desaparecer com apenas um estalar de dedos. O cantinho virtual onde fui feliz durante 4 anos vai à vida só porque meia dúzia de pessoas que estão no poder decidiram que isto era boa ideia.

O que é o Artigo 13? O Artigo 13 visa defender os direitos de autor que, se entrar em vigor, já em Janeiro de 2019, terá validade em todos os países da União Europeia. Os defensores da lei afirmam que a iniciativa tornará o mercado mais justo e sustentável para criadores de conteúdo, imprensa e afins. Existe ainda outro artigo, o artigo 11, ao qual foi dado menos atenção, mas que pode ter igualmente grande impacto, que determina o pagamento de uma taxa para partilhar links de  conteúdos de outros autores. Se ainda estão confusos, vejam este vídeo do youtuber Wuant que está muito esclarecedor (um muito obrigada a ele, por ter usado a sua influência para acordar todo o pessoal). 

Para quem se pergunta porque raio é que só agora estão a ouvir falar do artigo 13, não se preocupem, não estão sozinhos. Eu só descobri isto por um InstaStories (que também vão deixar de existir se isto for para a frente). Os meios de comunicação social abafaram o assunto durante muito tempo. Foi referido, timidamente, neste e naquele jornal, mas na televisão e nos restantes media nem uma palavra sobre isto. Sabem porquê? Porque beneficia-os. Os criadores de conteúdo digital são os maiores concorrentes dos meios de comunicação tradicional, portanto, para eles, o artigo 13 favorece-os imenso. Se já agora se deixam manipular pelos media tradicionais, imaginem quando este artigo for aprovado. Não vão ter acesso livre à informação, só vão ter acesso à informação que os mais poderosos querem. 

 Há, no entanto, malta que está a ignorar isto porque acha que não as afeta. " Ah, é bem feita para estes jovens que agora estão armados em influenciadores, em bloggers, youtubers,etc.". Aqui está o grande perigo deste artigo, ele alimenta-se da ignorância das pessoas. Desenganem-se se acham que sós os criadores de conteúdo é que vão sair prejudicados, todos vocês vão sair. Se isto for aprovado, podem dizer adeus ao Facebook, este só vai servir para mensagens, portanto não precisam dele, para isso já têm as sms. Digam adeus ao Instagram, a maior parte das vossas fotos vão ser bloqueadas, por coisas simples como estarem a usar a roupa de uma marca. Digam adeus à Google, a empresa não vai querer ter prejuízo connosco. A Google não tem direitos de autor de todas as páginas e imagens que possui., portanto já não vai querer nada com a Europa. Partilhar as vossas música e artistas favoritos? Não podem, porque estão a referir algo que não é vosso, vai contra o artigo 11. 

Imaginem o que vai acontecer as imagens acima se tornar realidade. É mesmo isto que querem?

Impor limitações na Internet é uma violação da liberdade de expressão e dos próprios direitos humanos. A própria ONU preconiza isso. Para as Nações Unidas, os países devem garantir no mundo online os mesmos direitos que garantem aos cidadãos no mundo offline. Na última vez que verifiquei, a liberdade de expressão ainda era um direito, portanto PORQUE RAIO estão a tentar retirar-me esse direito offline?!

Esta publicação pode estar muito confusa, posso ter deixado passar alguns erros, mas não quis ficar calada, a engolir isto simplesmente, sem luta. Nestas situações, tem que se fazer barulho o mais depressa possível. Temos todos que fazer barulho. Se querem continuar a ter uma Internet livre, por favor, NÃO SE CALEM. Escrevam publicações, partilhem as vossas ideias pela hashtag #SaveYourInternet, assinem esta petição, façam o que quiserem, mas façam com que a vossa voz seja ouvida. Façam alguma coisa JÁ, porque em 2019 podem ficar sem Internet.  


Às queridas pessoas que estão no Parlamento Europeu e que votaram nisto: podem considerar esta publicação como um "vão-se lixar!".

18.9.18

A "Noite da Mulher" é uma forma de dupla discriminação

A "Noite da Mulher" é uma forma de dupla discriminação

Numa altura em que o feminismo anda nas bocas do mundo, pouco se fala sobre algo que ainda é bastante comum na maior parte dos estabelecimentos noturnos. Parece que andamos  a jogar um jogo de ignorar o óbvio.

Todos nós, mais novos ou mais velhos, certamente  já estamos familiarizados com as famosas "Noites da Mulher" nos bares e discotecas. Na maior parte dos estabelecimentos,  a promoção consiste em entradas mais baratas para as mulheres e ofertas de três bebidas, mas há outros que elevam mais a fasquia nessas noites e oferecem entrada gratuita. 

Quando falamos de igualdade de género convém percebermos que privilégios com base no género não entram nem devem entrar na equação. Igualdade é igualdade, não funciona só quando nos convém, sejamos homens ou mulheres. Vejo muitas mulheres a defender com garra o feminismo, e depois a aceitar este tipo de ofertas porque "ah, nós já somos prejudicadas em tantos aspetos, temos que aproveitar aonde temos vantagens". 

Às mulheres que se aproveitam destes descontos, convido-vos a irem mais a fundo e refletirem no que está implícito quando se aceita uma oferta como esta. Não sejam ingénuas: os proprietários não pretendem ser simpáticos ou cavalheiros, tudo o que ambicionam é o lucro. Como se costuma dizer, não há almoços grátis. Este suposto benefício não passa de mais uma forma de explorar a beleza feminina para atrair o público masculino, cujos consumos de álcool, apesar de o paradigma atual ter mudado, ainda continuam mais elevados.  Uma vez ouvi dizer o seguinte: se vocês não pagam pelo produto, significa que o produto são vocês. 

No entanto, desenganem-se se pensam que as "Noites da Mulher" são apenas mais uma forma de sexismo exclusivamente dirigido às mulheres. Isto das entradas mais baratas/gratuitas para o sexo feminino é discriminatório para ambos os lados. As mulheres são usadas como "isco" para movimentar o negócio e atrair homens, e os homens são penalizados no acesso aos estabelecimentos, tendo que pagar muitas vezes o dobro, isto para não falar que estão a ser tratados como animais que precisam ser atraídos por algo. Estão, basicamente, a assumir, que todos os homens não vão a estes espaços de lazer por mera diversão, vão apenas para irem à "caça". Quão ofensivo é isto?

Além destas questões, as Lady Nights (como são conhecidas no estrangeiro) perpetuam outras formas de sexismo e estereótipos que passam mais despercebidos, mas que são igualmente errados: a ideia que as mulheres são incapazes de pagar as suas próprias bebidas e que têm que esperar que alguém as aborde, e a ideia que de que são os homens que têm que pagar as bebidas e serem os primeiros a meter conversa. 

Não sou muito de sair à noite, mas das poucas vezes que saio certifico-me que não seja em noites destas. Não só seria hipócrita da minha parte defender a igualdade de género e depois aproveitar ofertas destas, à descarada, como também me sentiria mal por estar a ser discriminada e a discriminar os outros ao mesmo tempo. 

Mulheres: ficar sem a "Noite da Mulher" poderá ser mau para a vossa carteira, mas será bom para a vossa dignidade. Homens: Não tenham medo de assumir as situações em que também estão a ser discriminados, cheguem-se à frente e falem. Toda a forma de discriminação, por muito subtil que seja, continua a ser discriminação. Não as ignorem por conforto.

11.9.18

O 11 de Setembro foi uma das minhas primeiras memórias de infância


Toda a gente se lembra do dia 11 de setembro de 2001. Toda a gente sabe perfeitamente o que estava a fazer no dia em que as famosas Torres Gémeas de Nova Iorque se desmoronaram, levando consigo milhares de vidas inocentes. 

Eu tinha 4 anos de idade. Não me lembro de muita coisa dessa altura, como é natural, ainda era muito novinha. Mas lembro-me perfeitamente do final da manhã de 11 de setembro de 2001. Pode muito bem ter sido a minha primeira memória da qual me recordo. 

Era hora de almoço aqui em Portugal. Eu estava a brincar no chão da cozinha, perto da televisão, enquanto a minha mãe estava a acabar de cozinhar e os meu pai a chegar do trabalho. De repente, calho de olhar para o que está a dar na TV e aquilo que vejo chama-me à atenção: duas torres em chamas. Eu não sabia que aquelas eram as famosas Torres Gémeas nem sequer onde eram, mas aquela visão deixou-me automaticamente horrorizada. Comecei a questionar os meus pais, a perguntar o que estava a acontecer, mas eles pareciam estar tão chocados como eu. Como poderiam eles explicar aquilo a uma criança, se nem os adultos compreendiam? Quando, mais tarde, a primeira torre colapsou, eu comecei a chorar. 

Ao longo do dia, eu já não me lembro de todos os momentos com tanta exatidão. Apenas sei que foi tudo uma grande confusão na minha cabeça. Os canais de televisão estavam sempre a passar imagens das Torres Gémeas a cair, porém eu não percebia que eram repetições, pelo que pensava que eram mais torres a cair. Os meus pais tentavam explicar-me que aquilo eram repetições, que o pior já tinha acontecido de manhã, mas eu continuava a chorar. Eu achava que o mundo estava a acabar.  A certa altura, acho que os meus pais tiveram que me levar para o meu quarto para eu não ver mais nenhuma imagem que estava a passar na televisão nem para fazer mais perguntas que eles não saberiam responder. 

Eu não estava errada de todo. O mundo acabou naquele dia. Não no sentido em que uma criança de 4 anos imagina que acaba, obviamente, mas como todos nós o conhecíamos. O mundo passou a ser um lugar cruel, e os atentados passaram a acontecer cada vez em maior número.  Na minha visão infantil, eu descobri que os vilões da vida real não envenenavam apenas maçãs ou faziam raparigas adolescentes adormecer por tempo indefinido. Os vilões da vida real mandavam abaixo prédios sem se importarem com as pessoas que estavam lá dentro. O mundo já não me parecia o lugar feliz e seguro que eu imaginava. Senti que, a qualquer momento, um avião também podia atravessar a minha casa.

Tal como eu, muitas crianças perderam um bocado da sua inocência naquele dia. As que tiveram o azar de morar mais perto do local da tragédia e com familiares no World Trade Center perderam muito mais que isso. Nenhuma criança devia ter que assistir a uma atrocidade tão grande como esta. Assim como não devia ter que testemunhar outras atrocidades que se praticam atualmente. Devíamos estar a criar um mundo mais seguro para as crianças, em que elas não tivessem que ficar fechadas em casa porque não é perigoso brincar na rua, em que pudessem confiar na bondade dos outros,  em que pudessem acreditar que o bem vai prevalecer sempre sobre o mal. Mas não, estamos demasiado ocupados  em odiarmo-nos uns aos outros para nos preocuparmos com estes princípios e com as futuras gerações.

" Once upon a time there was Humanity, but now there is only the name left" (Desconhecido)

25.5.18

Não somos extraordinários

 Não somos extraordinários

Estamos a caminhar para uma sociedade em que ser uma pessoa comum se está a tornar em algo negativo. Dizerem que temos uma vida ordinária começa a soar a insulto. Ter uma vida normal é a nova forma de fracasso. Mais valia sermos falhados, no verdadeiro sentido da palavra, porque assim não estaríamos a ser ignorados (embora não pelos melhores motivos). Todos nós queremos acreditar que estamos destinados a fazer algo incrível. A nossa cultura está a fazer com que acreditemos nisso. As celebridades dizem isso. Os políticos dizem isso. Os empreendedores dizem isso. Até os psicólogos nos fazem acreditar nisso. Porém, esta cena de "todos nós estamos destinados a ser espetaculares e a realizar grandes feitos" são apenas paninhos quentes que gostam de nos dar para nos consolar. 

Acreditamos frequentemente que, se não queremos ser os melhores em algo, estamos resignados com o mediano e que, portanto, nunca iremos atingir nada, porque estamos a aceitar a mediocridade. Este tipo de pensamento é perigoso, quase tóxico. Estamos a reduzir-nos a estatísticas. Validamos os nossos feitos por comparação. Estatisticamente falando, têm que existir pessoas medianas para podermos quantificar  as pessoas extraordinárias. Estamos, basicamente, a aceitar o facto de que, para sermos extraordinários,  mais metade da população mundial tem que fracassar. 

Na verdade, nem todos nós podemos ser extraordinários. Aliás, isso por si só até uma contradição. Se fôssemos todos extraordinários, ninguém seria extraordinário, porque ser extraordinário é ser fora do normal, e não o poderíamos sê-lo se ser excecional fosse o novo normal. Na verdade, ninguém é verdadeiramente extraordinário.

A maior parte de nós somos medianos na maior parte das coisas que fazemos. Mesmo que sejamos excecionais numa coisa, o mais provável é que sejamos medianos ou mesmo fracos em todas as outras áreas da nossa vida. É uma verdade crua da vida. Para sermos muito bons em algo, temos que lhe dedicar imenso tempo, o que significa que depois não teremos tanto tempo disponível para dedicar a outras coisas. Grandes génios como Einsten eram péssimos em manter relações com as pessoas que lhe estavam mais próximas, por exemplo. Somos seres com tempo e energia limitada. 

Não somos especiais. As nossas ações não são assim tão importantes quando avaliamos o mundo no seu todo. São apenas uma gota na imensidão que é um oceano. A nossa vida não vai ser tão espetacular como nos pintam, vai ser aborrecida a maior parte das vezes. Assim como nós. Vai existir sempre alguém que sabe mais do que nós, que tem algo que nós não temos, assim como nós sabemos coisas que outras pessoas não sabem e temos coisas que outras pessoas não têm. 

Ter uma vida ordinária não é um insulto, é aquilo que todos nós temos. Faz parte de ser humano. Ser humano não é querer ser melhor do que ninguém. É querer viver todas as experiências da vida em plenitude. As boas, as más e as neutras. Por isso, em vez de andarmos a correr atrás do extraordinário, comecemos antes a celebrar as nossas características únicas e a abraçar a magia que é estarmos vivos.

5.4.18

5 práticas da série "The Handmaid´s Tale" que acontecem na vida real

5 práticas da série " The Handmaid´s Tale" que acontecem na vida real

A série The Handmaid´s Tale foi, sem dúvida, a melhor série que vi em 2017. A distopia aclamada pela crítica, que recebeu vários prémios como  Emmys e Globos de Ouro, retrata uma América que foi devastada por um ataque terrorista e tomada por um governo católico, em que a função de muitas mulheres, as servas, é procriar para casais inférteis. Vou, sem dúvida, ver a segunda temporada. Nunca mais é dia 25 de abril! Esta série está tão bem escrita, tão bem interpretada, tão desconcertante, com uma banda sonora incrível, que é difícil arranjar uma série à altura que me entretenha até à próxima temporada. 

Esta história parece uma versão distorcida e aterrorizante do nosso mundo, mas é mais familiar do que aquilo que parece. Arriscaria dizer que até é um espelho daquilo que se está a passar atualmente. Em muitos países (até no nosso, talvez), as atrocidades retratadas pela série não só acontecem como são uma prática comum, pelo que não podemos simplesmente fechar os olhos e pensar que esta história é 100% fictícia.


1. Mutilação genital feminina: Na série, vemos que a punição de algumas mulheres por "comportamentos imorais" é verem os seus corpos mutilados, o que incluiu, muitas vezes, a prática de mutilação genital feminina como castigo corretivo. Infelizmente, a mutilação genital feminina não é um conceito que só existe  neste enredo, já aconteceu com mais de 140 milhões de mulheres em todo o mundo, e esta prática, que consiste na remoção de parte ou de todos os orgãos externos femininos, sem anestesia ou qualquer medicação para alívio da dor, continua a acontecer.

2.  Barrigas de aluguer e adoções forçadas: Em " The Handmaid´s Tale", Offred e as outras servas são forçadas a conceber e dar crianças às famílias às quais "pertencem". Os bebés saudáveis que nascerem são educados pelas esposas dos homens que violaram continuamente as servas. É uma conduta abominável, que parece absurda, mas a verdade é que também acontece na vida real. Na " Guerra Suja" da Argentina, os generais atiravam pessoas de aviões. Mas se existissem grávidas, esperavam que elas dessem à luz para roubar os seus filhos, e só depois as matavam. Mas não é preciso ir muito longe para ver isso. Lembram-se das notícias que saíram sobre as mães portugueses às quais retiraram os seus filhos em Inglaterra

3. Propriedade Patriarcal: Em Gilead, o lugar das mulheres é bem definido. Não devem ter emprego, opinião nem vontade própria. Devem ficar em casa a cuidar dos filhos e obedecer cegamente ao marido. Os direitos das servas então são, única e exclusivamente, gerar filhos saudáveis para as famílias que servem. Gostava de poder escrever que isto só aconteceu no passado, mas ainda acontece. Na Arábia Saudita, as mulheres precisam de obter permissão dos homens para trabalhar, estudar, viajar, casar ou procurar tratamento médico. As mulheres também estão proibidas de ter qualquer tipo de interação desnecessária com homens.

4. Estamos a estragar o ambiente de forma irreversível: Um dos fatores que contribuíram para a infertilidade das pessoas em Gilead foi quantidade de tóxicos e radiações que estragaram o meio ambiente. Os efeitos dos tóxicos na reprodução ainda não são tão extremos como nesta distopia, pelo menos para já, mas o que é certo é que já estamos a causar danos irreparáveis no nosso planeta.

5. A indumentária das servas: Na série, as servas devem usar vestimentas vermelhas e "chapéus" brancos para marcar o seu lugar na sociedade. Embora a escritora se tenha inspirado no Puritanismo de Inglaterra, o código de vestuário das servas também faz lembrar as burcas usadas pelas mulheres de países como o Afeganistão e Paquistão, para mostrar modéstia.


E vocês? Viram a série? Que paralelismos conseguem fazer com a realidade?

18.3.18

É estranho pessoas heterossexuais identificarem-se com filmes sobre homossexuais?


Na semana passada, vi o " Call me by your Name" e foi a história de amor mais deslumbrante que eu já vi. O filme conta a história de de um adolescente que se apaixona por outra pessoa, e é um retrato de um primeiro amor na sua forma mais pura, real e ao mesmo tempo desoladora. Todos nós nos identificamos com isto, não é verdade? Todos nós já vivemos um primeiro amor na adolescência, e sabemos o quanto intenso é e o quanto nos arrebata o coração. Mas e se eu disser que esta história de amor acontece entre dois homens?

Pois é, aí o caso muda de figura. Aí muitas das pessoas já não vêem o filme para se identificarem com a história ou retirar lições destas, mas mais numa de "tenho que ser uma pessoa mais de mente aberta" ou " Tenho que ser mais tolerante e, portanto, vou ver estas coisas.", ou ainda " Deve ser tão difícil ser gay na nossa sociedade, quero conhecer esta história tão inspiradora". Ninguém admite isto, nem a si mesmo mas, lá no nosso inconsciente, é por isso que muitos de nós, heterossexuais, nos pomos a ver filmes sobre homossexuais. 

Para satisfazer este público alvo, Hollywood aborda sempre as relações gays da seguinte forma: como relações proibidas, pais a expulsarem filhos de casa, e muita violência, homofobia, dramas e mortes à mistura. É por isso que, quando " Call me by Your Name" saiu, apareceram muitas críticas negativas. Quando souberam que esta era uma história gay, toda a gente estava à espera de muito drama como já estão habituados a ver neste género de filmes, e quando viram uma simples e bonita história de amor, muitos descreveram-no como vazio e demasiado aborrecido. Falharam em ver o filme como uma história de amor universal, que retrata as relações humanas na sua forma mais pura.

Entristece-me que a maior parte das pessoas só queira consumir histórias que são uma versão mais afloreada das suas próprias vidas e que não estejam dispostos a conhecer histórias que, embora à primeira vista não tenham nada a ver com a delas, as possam inspirar mais e ensinar mais do que qualquer outra. 

É claro que há algumas coisas que nós, heterossexuais não compreendemos nem nunca iremos compreender acerca dos homossexuais. Nunca tivemos que passar pela confusão, negação, pelo medo que descubram, pela repressão e pela coragem de revelarmos a nossa orientação sexual ao mundo. No entanto, existem muitas outras coisas que são universais em todo o tipo de relações humanas. 

Nós não compreendemos o que é sentir algo por alguém do mesmo sexo, mas compreendemos aquilo que é sentir algo por outro ser humano. Não compreendemos o que é andar uma carrada de tempo a tentar conquistar uma pessoa para depois perceber que, afinal, ela era heterossexual, mas compreendemos aquilo que é andar uma carrada de tempo atrás de alguém para depois perceber que, afinal, ela nos mandou sinais errados e está com outra pessoa. Nós, heterossexuais, não temos que lidar com pessoas que gostam de nós, mas que têm medo da sua própria sexualidade, mas temos que lidar com relações que não acontecem por outras razões que, às vezes, nem compreendemos.

A comunidade LBGTQ tem que travar muitas batalhas para ter o que nós tomamos por garantido. Porém, sentimentos como a paixão, o desejo, a busca incessante pela pessoa amada ou desgostos amorosos são universais e, portanto, todos nós podemos identificar-nos com um romance entre duas pessoas homossexuais. Mas mesmo que não nos possamos identificar com nada, a garra, a resiliência e a força de vontade que os membros da comunidade LBGTQ têm em muitos aspetos da sua vida podem ser verdadeiramente inspiradores para nós. 

Eu já vi muitos filmes e muitos romances LBGTQ e gostei e, não, não estou a duvidar da minha orientação sexual. Gosto apenas de uma boa história de amor, seja de que tipo for. Porque, para mim, amor é amor. E espero que um dia uma "história de amor gay" possa ser chamada apenas "história de amor".

24.2.18

5 lições sobre a sociedade que podemos aprender com a saga " Harry Potter"


Não me canso de repetir para quem insistir em teimar que a saga " Harry Potter" não é só para crianças. Qualquer pessoa que leu os últimos livros da saga pode confirmar isso, uma vez que nestes ( principalmente " Harry Potter e os Talismãs da Morte") a história ganhou uma dimensão muito mais pesada e até dolorosa.

Na verdade, mesmo que já tenham lido a saga quando eram mais novos, aconselho-vos a voltar a  ler agora que são adultos. Quando era criança, eu só vi os filmes, foi só no verão passado que li a saga, e refleti sobre assuntos sobre os quais nunca tinha refletido antes. Aos olhos de um adulto, a história mais mágica de sempre  pode conter muitas lições sobre o mundo em que vivemos e, se tirarmos a parte da magia, pode ser muito semelhante à nossa sociedade.

( Atenção: Este post tem spoilers. Se não lerem os livros nem viram os filmes, não leiam este post).


1. Não interessa onde nasceste, mas sim aquilo em que te tornas: Sirius Black nasceu numa família de Slyterins cruéis, contudo tornou-se num Gryffindor. A mãe de Hagrid era uma gigante violenta e, no entanto, o Hagrid é a personagem mais querida da saga. Um lema importante repetido muitas vezes nos livros e nas séries é que as pessoas não devem ser julgadas pelo sítio de onde vêm, mas pelas suas escolhas. É algo que nós, enquanto sociedade, devíamos transpor para a realidade.

2. Todos merecemos ter os mesmos direitos: Muitos dos acontecimentos da história criada pela J.K Rowling podem resumir-se a esta lição. Muito do enredo envolvia a desmantelação da opressão e da desigualdade. Os elfos domésticos têm o direito de ser pagos. Lobisomens, centauros e as outras criaturas mágicas merecem ser tratadas da mesma forma que feiticeiros. Os feiticeiros de sangue puro não devem ser superiores àqueles que nasceram em famílias Muggle. Na vida real, conseguimos estabelecer facilmente o equivalente destas lutas. Os escravos modernos, as crianças, que trabalham quase de graça para fabricar coisas banais como roupa e telemóveis. Os direitos dos animais. Os direitos das mulheres. A discriminação entre raças. Infelizmente, o nosso mundo também está longe de ser perfeito.

3. Não devemos confiar cegamente no governo: Lembram-se do primeiro livro, em que o Ministério da Magia parecia ser espetacular, mágico, o governo ideal? Mas depois, ao ler os restantes livros, fomos descobrindo a propaganda  falsa, a corrupção, a Dolores Umbridge, até o Ministro Fugde, que parecia ter boas intenções, estava um caco mentalmente. Nem sempre as leis definem aquilo que está certo e errado. Muitas vezes estão desajustadas à realidade de um país, pelo que não devemos acreditar em tudo aquilo que o governo nos transmite.

4. Olha de forma crítica para aquilo que aprendes na escola: Da mesma forma que não devemos confiar cegamente no governo, também não devemos acreditar em tudo aquilo que a escola nos transmite. Não nos podemos limitar a decorar toda a matéria que nos dão e olhar para aquilo como se fossem leis. Além de que nem sempre teremos os melhores professores. Os estudantes de Hogwarts não aprenderam defesa contra as Artes Negras como deve ser, porque estavam sempre a mudar de professores. Professores como Snape, Moody e Lockhart não eram os melhores exemplos. Certamente que muitos de vocês também conhecem professores assim.

5. O mundo não está dividido em pessoas boas e cruéis: À medida que o Harry foi crescendo, foi percebendo que as pessoas eram mais complexas do que aquilo que pensava. A Professora Umbridge era terrível mas, bem, não era uma Devoradora da Morte. O pai da Luna não era uma má pessoa, mas entregou os miúdos aos Malfoy para ter a sua filha de volta. O Snape foi terrível para Harry, mas no final ajudou-o a compreender tudo. Nada é só preto ou branco, existe muito cinzento pelo meio.


E vocês? Que lições da saga acham que podemos transpor para o mundo conturbado em que vivemos atualmente?

22.2.18

Vamos parar de negar: todos nós temos preconceitos

 Vamos parar de negar: todos nós temos preconceitos

Numa sociedade ainda pouco inclusiva, há quem queira nadar contra a corrente e fingir ter toda uma tolerância em relação a tudo quando, na verdade, não tem. Dizem-se muito tolerantes em relação a tudo e a todos, contudo são os primeiros a torcer o nariz à mínima diferença que encontram. E ai de quem os chame de preconceituosos, que insulto!

A palavra "preconceito" tem, frequentemente, uma conotação demasiado negativa. Tanto que, atualmente, vivemos quase que aterrorizados, a medir bem cada comportamento nosso e cada palavra que usamos, para nos safarmos de receber o temível rótulo "preconceituoso".  As pessoas que são intituladas de preconceituosas são pintadas de uma forma muito feia, monstruosa até: são pessoas de mente fechada, de pensamento retrógrado, frias, pouco tolerantes e, pior de tudo, com atitudes discriminatórias.

Porém, o preconceito e a discriminação nem sempre andam de mãos dadas. E essa crença advém do facto de a maior parte de nós nem saber sequer o que esta palavra significa. Já pararam para pensar no verdadeiro significado da palavra? Basta dividi-la: é um pré-conceito. De acordo com o dicionário, é uma ideia preconcebida sobre algo ou alguém. Não significa necessariamente que estejamos a ser ignorantes,  precipitados ou que estejamos a discriminar. Apenas estamos a estabelecer um juízo de valor sobre algo ou alguém, sem conhecimento de causa. E acreditem, é algo que estamos a fazer a toda a hora. As primeiras impressões que temos quando conhecemos alguém, por exemplo, não são isso mesmo?  Um preconceito não é nada mais nem menos do que uma ideia preconcebida manifestada racionalmente pelo direito de nos exprimirmos livremente.

Durante o meu percurso académico, já me deparei com várias temáticas e realidades diferentes da minha, e fui desconstruíndo alguns mitos em que acreditava. Muitas vezes, fui confrontada pelo meu próprio consciente " Como pude achar isto daquilo? Será que estou a ser preconceituosa?". Demorei algum tempo a reconhecer humildemente que sim que, de facto, estava a ser preconceituosa, mas não da forma que pensava. Preconceituosa no sentido em que tinha uma ideia pré-estabelecida sobre algo, mas estava motivada a desmantelar essas ideias e formar novos conhecimentos. Mas nunca agi de forma discriminatória.

Vamos reconhecer isto de uma vez por todas: todos nós temos preconceitos. Uns mais que outros, mas todos temos. E isso não é necessariamente mau. A diferença entre sermos preconceituosos e discriminantes está naquilo que fazemos com os preconceitos que temos. Procuramos, de mente aberta, aprender mais sobre determinado assunto ou determinada pessoa/comunidade para, aos poucos, reformular as ideias que tínhamos? Ou partimos logo para a ação, sem nos preocuparmos com a nossa falta de informação e com as consequências que daí poderão advir, como ferir os sentimentos das outras pessoas? 

Quer queiramos ou não, ter preconceitos faz parte da natureza humana. Não podemos impedir isso. Aquilo que podemos impedir é que estes partam para atos discriminatórios porque esses sim, são desumanos e impedem-nos de viver de uma forma livre e feliz. 

17.2.18

5 coisas que dizemos sobre nós próprios que irritam os outros

5 coisas que dizemos sobre nós próprios que irritam os outros

Já alguma vez repararam que existem comentários negativos que nós dizemos que fazem com que as pessoas revirem automaticamente os olhos? E nem sequer são comentários que as envolvem, muitas vezes são coisas que nós dizemos acerca de nós próprios que não significam nada à primeira vista, mas que podem ser muito irritantes para quem as ouve.

Cada vez tenho constatado mais que simples frases podem gerar interpretações negativas que não esperávamos. É incrível como certas afirmações, que parecem inofensivas à primeira vista, podem incomodar tanto  as pessoas. Estas são apenas alguns exemplos daquela que poderia ser uma enorme lista.


1. Eu não presto para nada: Ok, eu sei que muitas vezes dizemos isto na brincadeira (principalmente se somos universitários e estamos em época de exames), mas quando dizemos isto a sério estamos a pôr as outras pessoas numa posição desconfortável, em que elas sentem a necessidade de contradizer aquilo que estamos a dizer. Além de que dizer isto continuamente não faz nada bem a nós próprios. Como se costuma dizer, uma mentira dita muitas vezes torna-se verdade.

2. Eu fico horrível nisto: Isto é algo que, nós, mulheres, fazemos muitas vezes para tentar " caçar" elogios aos outros. Porque todas nós precisamos de um boost no ego de tempos a tempos. Mas se estivermos constantemente a fazer isso, eu posso garantir-vos que as pessoas depressa se cansam. Eu, pelo menos, farto-me. Temos que dar também espaço para que as pessoas nos elogiem de livre vontade.

3. Oh, não me fica nada bem: Alguns de nós não sabem lidar bem com elogios (eu incluída!), pelo que, quando o fazem, a nossa tendência é ou corar ou então rejeitá-los como, por exemplo, quando elogiam a nossa roupa "oh, não me fica nada bem". Se não sabes que mais dizer, um simples " obrigado" chega.

4. Tenho tanto que fazer: É totalmente normal queixarmo-nos aos nossos familiares/amigos do nosso horário ocupado, mas se isso é o teu único tema de conversa ou se usas isso como desculpa para cancelar planos pode ser muito chato. Aquilo que me apetece responder quando me dizem isto é "Adivinha? Eu também!".

5. Isto custou-me x: Obviamente que não devemos fazer do dinheiro um assunto tabu e é sempre bom falar sobre este assunto com os nossos familiares e amigos porém, mais uma vez, é mau se for em demasia. A maior parte das vezes, ninguém quer saber quanto dinheiro gastaste com os teus sapatos ou relógio.


Quais são os comentários sobre nós próprios que acham que irritam as outras pessoas?