No outro dia, dei por mim a olhar para o cursor a vaguear na barra de pesquisa por 5 minutos, sem pesquisar. Eu estava aborrecida, mas não me apetecia fazer nada de produtivo. Aquilo que me apetecia mesmo era desperdiçar tempo, deixar a mente devanear em algum sítio. Todavia, eu não sabia como o fazer. Eventualmente, abri o Facebook para ler, mais uma vez, a atualização de casos de Covid. Um mundo inteiro no computador, um que costumava entreter-me de mil e uma formas, e ali estava eu a ler as notícias. Era pior do que estar a trabalhar.
A Internet de antigamente, que atingiu o seu auge em 2015 - the golden age para muitas plataformas, a blogosfera incluída - era um lugar seguro para partilhar desabafos, quer fosse a mostrar a cara ou escondidos atrás de uma imagem do Tumblr (nos bons tempos em que este ainda existia) . E , sobretudo, era um lugar seguro para estranhas, loucas e únicas experiências humanas, livres de algoritmos e da pressão das grandes companhias. Naquela altura, ninguém criava um blog, um canal de Youtube ou uma página de Tumblr para ser rico ou famoso - fazíamos isso porque era divertido, uma ótima forma de aliviarmos o stress do nosso dia a dia e de nos conectarmos com pessoas do mundo inteiro com um simples clique - ou alguns vá, ainda usávamos o Windows XP. Para jovens que, como eu, eram tão tímidos nos seus anos de escola, a net era praticamente um escape.
2015 foi um grande marco para o conteúdo digital. Pela primeira vez na vida, as marcas começaram a reconhecer o potencial dos internáuticos (acho que naquela altura o termo influencer ainda não estava em voga) para promover os seus produtos. Foi uma grande conquista dar o poder a pessoas ditas normais, de darem a sua opinião sobre os produtos e influenciarem o consumo, não nego, mas não sei se foi a partir de aqui que a coisa descambou para o que é na atualidade. Agora todas as plataformas são trabalho, uma forma de marketing e fazer render uma imagem de marca que tentamos a tudo o custo que se destaque no meio de milhões - em vez de ser uma comunidade de pessoas normais, ordinárias, com os interesses mais variados e aleatórios (e não aqueles que são socialmente aceitáveis).
Há uns anos, eu escrevi neste post que a blogosfera estava a passar por um período difícil. Contudo, nos últimos tempos tenho visto isto replicado em várias plataformas - "O Youtube estará a morrer?", o "Instagram estará a acabar"- e começo a achar que o problema não está só nas plataformas, está na net em geral, que se tornou demasiado uniformizada, monetizada e, por consequência, demasiado regulada. Tudo é controlado por algoritmos que deitam abaixo os criadores de conteúdo mais pequenos, sem qualquer poder de consumo. Tudo é controlado por companhias que censuram a Internet para a tornar supostamente mais familiar, mais clean, e mais politicamente correta.
Com esta uniformização, existe milhões de conteúdo mais do mesmo. Até as apps são todas iguais: o Instagram, o Twitter e o Messenger pertencem agora todos ao Facebook, e estão a morrer com este último. Agora está também na moda o conteúdo rápido, que não dura mais de um minuto, algo que exponencia a quantidade de estímulos que recebemos de cada vez que ligamos o nosso PC ou browser e, por consequência, o overwhelming de informação. For God´s Sake, agora até guias no Instagram criaram para quem tem preguiça de ler blogs.
Num esforço de reparar os nossos cérebros quebrados pelo saturação de informação, nós fazemos detoxes digitais. Desligamos os nossos telemóveis por um fim de semana, passeamos ao ar livre, recuperamos hobbies do tempo dos nossos avós como cuidar de plantas ou fazer puzzles e sabe tão bem! Porém, mais cedo ou mais tarde, temos que voltar ao mundo digital, porque a nossa vida já depende literalmente desta - e, inclusive, o nosso trabalho. E tudo continua o inferno que é atualmente. Sim, leram bem, a Internet de hoje é um verdadeiro inferno: nós já não estamos mais a partilhar ideias uns com os outros, estamos a gritá-las. Tanto que estamos a chegar a um ponto em que já ninguém consegue ouvir ninguém.
Não sei se vocês sentem o mesmo, eu cá sinto-me tão cansada de tanto conteúdo. Passado 5 minutos já me sinto tão esgotada e sobrecarregada de informação que, esmiuçando bem, não me interessa para nada. Isto deixa-me frustrada. Eu quero continuar a consumir conteúdo e sentir-me inteligente. Eu quero usar o meu cérebro para absorver novas ideias, ler artigos, ouvir podcasts, ver vídeos, fotos magníficas... Mas como o posso fazer se todo o conteúdo se parece, bem, sem conteúdo nenhum?
A Internet está a ficar mais pequena, tantos algoritmos e regulações de empresas estão, a pouco e pouco, a matar a loucura e a diversidade que antes habitava em terras virtuais. As poucas pessoas que ainda têm paixão pelo que fazem- muito para além da paixão pelo dinheiro- estão a ter cada mais dificuldade em manter a cabeça à tona da água... É difícil andar continuamente a navegar contra a corrente, a criar algo pela diversão em vez daquilo que é potencialmente viral. A perder todo o feedback, apoio e companheirismo que antes se tinha. A mim este último é o que mais me custa - mais do que os números, eu gosto de ter opiniões concretas sobre aquilo que escrevo.
Se estavam a perguntar-se porque é que desapareci do meu blog por mais de 2 semanas, bem, é por isto. Alguns podem estar a ler e a querer argumentar que parte da culpa é minha, que se calhar sou eu que não estou a conseguir adaptar-me à mudança. Talvez seja verdade, talvez me tenha tornado como os idosos, que são incapazes de aprender a trabalhar com as novas tecnologias por mais que tentem; talvez esteja demasiado nostálgica e presa ao passado; talvez esteja a ter uma quarter life crisis aos 23 e esteja a redescobrir a minha identidade criativa. O que quiserem. Aquilo que sei é que a Internet se tornou, para mim, num mundo utilitário ao alcance dos meus dedos. Mas já não é mais divertida.
Saudades dos tempos em que pensávamos que o Artigo 13 era a verdadeira ameaça... A Internet já tinha começado a sucumbir à censura sem nos apercebermos disso. Como usaremos a Internet como um escape, no futuro, se esta cada vez se parece mais com a "vida real"?
(Nota de final de post: não, não vou desistir do blog. Esta publicação é apenas um desabafo. Escrever continua a ser uma parte intrínseca de mim e o Life of Cherry a minha casinha virtual.)
(Nota de final de post 2: A edição de outubro da rubrica "5 coisas" vai sair junta com a de novembro. Com tantos turnos e - lá está - esta desmotivação adiei tanto até ao momento de já não ser aceitável publicar no dia 15. Portanto fazemos assim.)
(Ilustração: Kate Sutton)































