(Ilustração: Kate Sutton)

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Sempre que posso, procuro ver filmes e documentários "fora da caixa", que me façam verdadeiramente pensar. Já há algum tempo que não vejo um que me inquiete realmente, por isso quando recebi esta sugestão, fiquei imediatamente intrigada.
O nome do documentário, "The Red Pill", é uma alusão a um termo muito usado no Movimento dos Direitos Masculinos (numa tradução livre, o original é "Men´s Rights Movement" ou MRA), que referencia Matrix, onde uma personagem é dada a escolher entre uma pílula vermelha, que lhe revelará a verdade por detrás de tudo aquilo que sempre conheceu, ou uma pílula azul, que o manterá sobre uma névoa de ignorância e (supostamente) mais feliz. Este documentário é produzido por Cassie Jay, uma atriz que se tornou uma jornalista feminista após anos de abusos em Hollywood. Tendo ela uma fome insaciável por temas controversos e tendo já coberto todo o tipo de temas polémicos relativos a mulheres, a jornalista decidiu desafiar as suas próprias crenças e explorar o mundo desconhecido dos direitos dos homens.
No seu percurso de um ano neste novo mundo, Cassie faz vídeos caseiros diariamente, a documentar a forma como a suas convicções mais fortes estavam a ser abaladas. Tal como a Cassie, também eu, enquanto assisti, me senti confrontada pelas minhas próprias visões feministas, tanto que, em alguns momentos, tive que clicar no botão de pausa para ir arejar as ideias. Dei por mim a ter empatia por muitas das questões que o autoentitulado movimento de homens abordou: a violência doméstica/no namoro contra homens, violação masculina, fraude na paternidade, guerras de custódia,... Habituei-me a pensar que, como uma mulher, eu nasci sem privilégios, que os homens tinham todos os privilégios do mundo e, turns out, há aspetos em que nós é que beneficiamos de mais vantagens do que eles.
Apesar da natureza provocadora desta produção, achei impressionante o facto de, mesmo assim, esta conseguir distanciar-se da postura "masculinista", mantendo uma posição de neutralidade para que o espectador possa, por si mesmo, decidir qual a sua opinião - dando, ao mesmo tempo, voz às mulheres para estabelecer o paralelo entre duas perspetivas. Sinto que isto me permitiu criar mais simpatia pelos problemas que foram abordados pelos homens, em vez de me sentir a sofrer algum tipo de "lavagem cerebral" - até porque, em certos momentos do documentário, e sem querer desvalorizar muitos dos seus argumentos acertados, senti que este movimento era tão tóxico como o feminismo radical. "Red Pill", ao mostrar os dois lados diametralmente opostos, faz-nos questionar porque é que existe tanto ódio de mulheres contra os homens e vice-versa, e qual ou se alguns deles é a verdadeira resposta contra a discriminação com base no género.
O documentário sofreu e continua a sofrer inúmeras resistências por parte de distribuidoras (em alguns países até foi banido dos cinemas), ataques em exibições, resistências por parte dos serviços de streaming, famosos sites de críticas como o Rotten Tomatoes recusaram-se a fazer qualquer tipo de avaliação... Conhecendo bem o meu público alvo como conheço - essencialmente mulheres - sei que isto pode ser algo desconfortável para vocês, porém recomendo vivamente que vejam, mesmo assim. Como feministas (no verdadeiro sentido da palavra), acho que é importante estarmos abertos a outros pontos de vista, mesmo que estes entrem em confronto com aquilo que acreditamos toda a vida. Afinal, parte do movimento que tanto estimamos implica ter também empatia pelos problemas dos homens.
Ainda não estou pronta para desistir do feminismo completamente ao contrário daquilo que a jornalista afirmou no final (porque ainda há tanto por conquistar), porém sinto que este se tem afastado muito do seu propósito original, a igualdade, tem-se tornado demasiado radical, odioso, silenciando completamente os problemas e gender-roles com que os homens têm de lidar. Precisamos de reformular o movimento (quem sabe, com um novo nome mais neutro) que abrace em pleno a luta pela igualdade de géneros, em vez de perpetuar esta guerra sobre qual o género que deve ter mais privilégios.
(Se quiserem aprofundar o vosso conhecimento sobre o tema e saber mais sobre o porquê deste documentário, recomendo que vejam esta Ted Talk)








