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25.11.20

A Internet era o meu escape, mas socorro, agora preciso de escapar dela!


No outro dia, dei por mim a olhar para o cursor a vaguear na barra de pesquisa por 5 minutos, sem pesquisar. Eu estava aborrecida, mas não me apetecia fazer nada de produtivo. Aquilo que me apetecia mesmo era desperdiçar tempo, deixar a mente devanear em algum sítio. Todavia, eu não sabia como o fazer. Eventualmente, abri o Facebook para ler, mais uma vez, a atualização de casos de Covid. Um mundo inteiro no computador, um que costumava entreter-me de mil e uma formas, e ali estava eu a ler as notícias. Era pior do que estar a trabalhar. 

A Internet de antigamente, que atingiu o seu auge em 2015 - the golden age para muitas plataformas, a blogosfera incluída - era um lugar seguro para partilhar desabafos, quer fosse a mostrar a  cara ou escondidos atrás de uma imagem do Tumblr (nos bons tempos em que este ainda existia) . E , sobretudo, era um lugar seguro para  estranhas, loucas e únicas experiências humanas, livres de algoritmos e da pressão das grandes companhias. Naquela altura, ninguém criava um blog, um canal de Youtube ou uma página de Tumblr para ser rico ou famoso - fazíamos isso porque era divertido, uma ótima forma de aliviarmos o stress do nosso dia a dia e de nos conectarmos com pessoas do mundo inteiro com um simples clique - ou alguns vá, ainda usávamos o Windows XP.  Para jovens que, como eu, eram tão tímidos nos seus anos de escola, a net era praticamente um escape. 

2015 foi um grande marco para o conteúdo digital. Pela primeira vez na vida, as marcas começaram a reconhecer o potencial dos internáuticos (acho que naquela altura o termo influencer ainda não estava em voga) para promover os seus produtos. Foi uma grande conquista dar o poder a pessoas ditas normais, de darem a sua opinião sobre os produtos e influenciarem o consumo, não nego, mas não sei se foi a partir de aqui que a coisa descambou para o que é na atualidade. Agora todas as plataformas são trabalho, uma forma de marketing e fazer render uma imagem de marca que tentamos a tudo o custo que se destaque no meio de milhões - em vez de ser uma comunidade de pessoas normais, ordinárias, com os interesses mais variados e aleatórios (e não aqueles que são socialmente aceitáveis).

Há uns anos, eu escrevi neste post que a blogosfera estava a passar por um período difícil. Contudo, nos últimos tempos tenho visto isto replicado em várias plataformas - "O Youtube estará a morrer?", o "Instagram estará a acabar"- e começo a achar que o problema não está só nas plataformas, está na net em geral, que se tornou demasiado uniformizada, monetizada e, por consequência, demasiado regulada. Tudo é controlado por algoritmos que deitam abaixo os criadores de conteúdo mais pequenos, sem qualquer poder de consumo. Tudo é controlado por companhias que censuram a Internet para a tornar supostamente mais familiar, mais clean, e mais politicamente correta. 

Com esta uniformização, existe milhões de conteúdo mais do mesmo. Até as apps são todas iguais: o Instagram, o Twitter e o Messenger pertencem agora todos ao Facebook, e estão a morrer com este último. Agora está também na moda o conteúdo rápido, que não dura mais de um minuto, algo que exponencia a quantidade de estímulos que recebemos de cada vez que ligamos o nosso PC ou browser e, por consequência, o overwhelming de informação. For God´s Sake, agora até guias no Instagram criaram para quem tem preguiça de ler blogs. 

Num esforço de reparar os nossos cérebros quebrados pelo saturação de informação, nós fazemos detoxes digitais. Desligamos os nossos telemóveis por um fim de semana, passeamos ao ar livre, recuperamos hobbies do tempo dos nossos avós como cuidar de plantas ou fazer puzzles e sabe tão bem! Porém, mais cedo ou mais tarde, temos que voltar ao mundo digital, porque a nossa vida já depende literalmente desta - e, inclusive, o nosso trabalho. E tudo continua o inferno que é atualmente. Sim, leram bem, a Internet de hoje é um verdadeiro inferno: nós já não estamos mais a partilhar ideias uns com os outros, estamos a gritá-las. Tanto que estamos a chegar a um ponto em que já ninguém consegue ouvir ninguém. 

Não sei se vocês sentem o mesmo, eu cá sinto-me tão cansada de tanto conteúdo. Passado 5 minutos já me sinto tão esgotada e sobrecarregada de informação que, esmiuçando bem, não me interessa para nada. Isto deixa-me frustrada. Eu quero continuar a consumir conteúdo e sentir-me inteligente. Eu quero usar o meu cérebro para absorver novas ideias, ler artigos, ouvir podcasts, ver vídeos, fotos magníficas... Mas como o posso fazer se todo o conteúdo se parece, bem, sem conteúdo nenhum?

A Internet está a ficar mais pequena, tantos algoritmos e regulações de empresas estão, a pouco e pouco, a matar a loucura e a diversidade que antes habitava em terras virtuais. As poucas pessoas que ainda têm paixão pelo que fazem- muito para além da paixão pelo dinheiro- estão a ter cada mais dificuldade em manter a cabeça à tona da água... É difícil andar continuamente a navegar contra a corrente, a criar algo pela diversão em vez daquilo que é potencialmente viral. A perder todo o feedback, apoio e companheirismo que antes se tinha. A mim este último é o que mais me custa - mais do que os números, eu gosto de ter opiniões concretas sobre aquilo que escrevo. 

Se estavam a perguntar-se porque é que desapareci do meu blog por mais de 2 semanas, bem, é por isto. Alguns podem estar a ler e a querer argumentar que parte da culpa é minha, que se calhar sou eu que não estou a conseguir adaptar-me  à mudança. Talvez seja verdade, talvez me tenha tornado como os idosos, que são incapazes de aprender a trabalhar com as novas tecnologias por mais que tentem; talvez esteja demasiado nostálgica e presa ao passado; talvez esteja a ter uma quarter life crisis aos 23 e esteja a redescobrir a minha identidade criativa. O que quiserem. Aquilo que sei é que a Internet se tornou, para mim, num mundo utilitário ao alcance dos meus dedos. Mas já não é mais divertida. 

Saudades dos tempos em que pensávamos que o Artigo 13 era a verdadeira ameaça... A Internet já tinha começado a sucumbir à censura sem nos apercebermos disso. Como usaremos a Internet como um escape, no futuro, se esta cada vez se parece mais com a "vida real"?

(Nota de final de post:  não, não vou desistir do blog. Esta publicação é apenas um desabafo. Escrever continua a ser uma parte intrínseca de mim e o Life of Cherry a minha casinha virtual.)

(Nota de final de post 2:  A edição de outubro da rubrica "5 coisas" vai sair junta com a de novembro. Com tantos turnos e - lá está - esta desmotivação adiei tanto até ao momento de já não ser aceitável publicar no dia 15. Portanto fazemos assim.)


 (Ilustração: Kate Sutton)

3.11.20

Ajustar as expetativas para os meses de Inverno (ainda em pandemia)

Ajustar as expetativas para os meses de Inverno (ainda em pandemia)

É cada vez mais difícil não usar superlativos para descrever este ano. 2020 tem sido o mais difícil, o mais desafiante e um dos piores que eu já vivi (não o pior, esse foi em 2013). E se eu digo isto, na minha posição privilegiada, em que até tido uma sorte tremenda - fui capaz de acabar o curso, arranjar emprego (also, numa profissão que terá sempre emprego nem que estejamos no meio de um apocalipse) e tenho todos ao meu redor de boa saúde, não imagino a dor daqueles cuja sorte não os favorece tanto. 

Já passaram 10 meses, e 7 destes foram vividos em pandemia. 2 deles em confinamento, os mais lentos a passar (juro que pareceu anos), mas de abril a novembro parece que passou tudo num piscar de olhos. 

Todos nós saímos desta quarentena com imensos desejos. Que iríamos passar dias sem parar em casa. Que iremos voltar a lanchar nos cafés de sempre com as nossas pessoas. Que voltaríamos às loucas festas de fim de semana. Que iríamos imensas vezes ao cinema. Que visitaríamos, beijaríamos e abraçaríamos todas as pessoas de quem tivemos saudades. Que iríamos viver da forma mais louca, mais do que nunca. Nada nos iria impedir. Todos nós acreditamos, queríamos acreditar que mal o confinamento acabasse tudo voltaria ao normal (até eu, que sou da área da saúde). Esquecemo-nos que, por muito que isso fosse o mais correto, nenhum país conseguiria estar em quarentena o tempo suficiente para o vírus desaparecer por completo.

Sinto que, nestes meses de verão, o grande problema das pessoas foi ajustar estas expetativas. Português que se preze glorifica o verão, e nada podia parar, nem no meio de uma pandemia. As praias estiveram cheias, os emigrantes regressaram na mesma em força, os bares e discotecas surpreendentemente estiveram em alta na mesma (nem com o seu horário de pastelaria - I guess que não estavam mesmo a brincar quando disseram "se tiver que me embebedar às 10 h da manhã é o que vou fazer"), os nossos feeds estiveram cheios de todas as saídas possíveis e imaginárias e, no meio disto tudo, as notícias de Covid ficaram escondidas lá bem no fundo. Com tanta alegria e sol não deu para notar, mas a pouco e pouco estávamos a fazer a cama do cenário que temos agora: quase 4000 casos por dia, mais do que tínhamos em abril. 

Espera-nos um Inverno difícil. Não vai voltar a haver uma quarentena (pelo menos, não com a dimensão temporal da primeira, que já nenhuma economia de nenhum país aguenta isso) para nos controlar. Temos de reajustar as nossas expetativas. Pensar naquilo que ainda podemos fazer em vez de naquilo que não podemos fazer - e não naquilo que queríamos mesmo fazer (e que sentimos que foi novamente retirado de nós), que não nos sentimos confortáveis a fazer (mas que queríamos fazer por pressão dos outros ou das redes sociais) ou não nos sentimos preparados para fazer. Acima de tudo, aceitar que as nossas rotinas de inverno, do Natal e do Ano Novo não serão as mesmas em 2020. 

Ainda existe muito "normal" nas nossas rotinas. Ainda vamos ter refeições saborosas no refúgio da nossa casa. Ainda vamos ter o conforto das mantinhas. Ainda vamos adormecer ao som da chuva. Ainda vamos sair para o trabalho e sentir o cheiro a terra molhada. Ainda vamos ter leituras aconchegadoras. No natal, ainda haverão luzinhas, filmes da Disney, doces e prendas (nem que as mesmas sejam entregues às distância). Só é preciso um bocadinho de mais esforço para encontrá-lo. 

9.10.20

Normal People: a série e o livro correspondem mesmo à hype?

"Normal People" já estava na minha lista de leitura do ano passado, mas ainda não tinha lido uma vez que não sou muito de ler tudo aquilo que é considerado hype em determinado momento. Normalmente, não confio muito quando algo está a ser falado tão incessantemente - as pessoas têm muito a tendência de ser "Maria vai com as outras". Prefiro ler quando já não se fala tanto, para não sair com expetativas furadas, mesmo que isso implique só conhecer histórias maravilhosas 500 anos depois (é o clássico comportamento da Cherry). Porém, desta vez, a partir do momento em que lançaram a série, ninguém se calava com "Normal People", em lado nenhum! Estavam em todo o lado, bloggers, youtubers, até nos podcasts, a falar do mesmo. Eu acabei por não resistir, e ter que ler e ver a série na mesma semana - juro que se a hype não fosse verdadeira eu ia matar alguém pelo tempo investido mas, vá, safaram-se desse destino cruel.

Ao contrário daquilo que é habitual nas minhas reviews, decidi fazer uma publicação com duas partes, a primeira a falar do livro e a segunda da sua respetiva adaptação televisiva, porque ambas conseguiram complementar-se uma à outra de forma belíssima!


O livro


Não escondo já que o livro foi o meu preferido. Eu sei, eu sou suspeita, a minha estima por livros é sempre maior que a minha estima por filmes/séries, mas neste caso tem apenas a ver com a subtileza do mesmo, porque eu nem tenho muito a apontar à adaptação (até é das melhores que já vi!). Numa narrativa lenta e sóbria, a autora dá mais enfoque à formação da intimidade emocional entre duas pessoas. Não há um climax, digamos assim, o enredo acontece nos encontros e desencontros dos protagonistas, conforme vão navegando por várias fases da vida. 

À primeira vista, este pode parecer mais um YA, contudo não é o caso. Em primeiro lugar, por se passar na universidade, mas também por abordar temas considerados pesados, como depressão, ansiedade, violência, famílias disfuncionais, bullying... Aliás, foram estes temas que fizeram com que eu tivesse um pouco mais de empatia pelo Connell e a Marianne porque, não fossem os seus sérios problemas pessoais, eu nunca compreenderia porque é que duas pessoas que obviamente se amam andam sempre ora a namorar, ora a acabar (algo que me irrita tanto que seja tão romantizado!). Confesso que muitas vezes me senti frustrada até, tamanha era a falta de comunicação deste casal fictício. Isto é apenas, claro uma perspetiva baseada em experiências pessoais distintas das personagens, provavelmente, esta é a realidade de muitos relacionamentos de jovens da geração atual (é irónico como, mesmo com tantos meios de comunicação ao seu alcance, não se consigam entender).

Por outro lado, os momentos da trama em que os protagonistas realmente estavam juntos foram tão enternecedores. Ver retratadas as emoções de quando nos apaixonamos no seu estado mais puro, as conversas íntimas, a amizade que cresce lado a lado com o amor (sim, porque quem diz que o nosso parceiro não pode ser também o nosso melhor amigo?), o carinho escondido em cada gesto... Em "Normal People", as relações amorosas são apresentadas no seu estado mais cru, exatamente como acontecem na vida real se deixarmos de complicar tanto e mostrarmos,sem reservas, o nosso verdadeiro eu  à outra pessoa. 


A série




Naturalmente, tendo sido a BBC a fazer a adaptação televisiva (em parceria com a Hulu), a história perde um pouco a subtileza do livro - motivo pelo qual, apesar de também ter adorado, não consigo a considerar  melhor do que o mesmo. É adicionada uma carga de dramatismo, é dado mais enfoque à intimidade física - tem muitas mais cenas de sexo, porém nada de vulgar como eu temia que fizessem, mais ao estilo de Call Me By Your Name. Falando um pouco dessas cenas, logo nas primeiras temos um clara demonstração do consentimento e de como as primeiras relações sexuais podem ser sim estranhas e engraçadas sem, no entanto,  perderem a magia dos filmes e serem caracterizadas por dor ou insegurança. Desta forma, "Normal People" em versão série mantém-se na mesma, fiel ao guião original, que apresenta o sexo como algo que pode ser tão íntimo e extraordinário. Ao invés das representações objetificadas que chegam a ser desconfortáveis de assistir, aqui é mostrado sexo que geralmente não costuma ser representado nos media, ao ser consensual e acompanhado de sentimentos de descoberta e afeto pelo outro. 

A série tem uma aesthetic que a ajuda a aproximar-se da sensibilidade do livro. Noutra fase da história audiovisual, a adaptação de "Normal People" teria sido em filme - passar um livro com apenas 280 páginas para 12 episódios foi uma jogada arriscada que podia ter corrido muito mal - porém, curiosamente, a série conseguiu aguentar-se precisamente por esta bonita cinematografia, entre o ritmo e a comtemplação, mérito de diálogos bem feitos e um elenco bem escolhido.  Claro que esta abordagem  foi conseguida desta forma por Sally Rooney ter trabalho no roteiro, o que faz com que a adaptação tenha sido tão fiel ao original.

A passagem de tempo é, neste formato, mais notável, sendo possível visualizar mais claramente o amadurecimento de Connell e Marianne. Connell luta contra inseguranças que até ali desconhecia, enquanto Marianne parece desabrochar no ambiente universitário, escondendo, ao mesmo tempo, problemas do passado. Assim, além da relação de idas e vindas incessantes, também é explorada todas as mudanças individuais que o começo da vida adulta traz.

O final da série foi ligeiramente diferente da do livro, contudo dentro do mesmo tom - um final aberto em que podemos pensar em vários cenários possíveis, tal como na vida real. Portanto, podem acreditar na hype, é muito justificada.

22.9.20

Um documentário que me fez repensar todo o meu percurso como feminista



Sempre que posso, procuro ver filmes e documentários "fora da caixa", que me façam verdadeiramente pensar. Já há algum tempo que não vejo um que me inquiete realmente, por isso quando recebi esta sugestão, fiquei imediatamente intrigada. 

O nome do documentário, "The Red Pill", é uma alusão a um termo muito usado no Movimento dos Direitos Masculinos (numa tradução livre, o original é "Men´s Rights Movement" ou MRA), que referencia Matrix, onde uma personagem é dada a escolher entre uma pílula vermelha, que lhe revelará a verdade por detrás de tudo aquilo que sempre conheceu, ou uma pílula azul, que o manterá sobre uma névoa de ignorância e (supostamente) mais feliz. Este documentário é produzido por Cassie Jay, uma atriz que se tornou uma jornalista feminista após anos de abusos em Hollywood. Tendo ela uma fome insaciável por temas controversos e tendo já coberto todo o tipo de temas polémicos relativos a mulheres, a jornalista decidiu desafiar as suas próprias crenças e explorar o mundo desconhecido dos direitos dos homens. 

No seu percurso de um ano neste novo mundo, Cassie faz vídeos caseiros diariamente, a documentar a forma como a suas convicções  mais fortes estavam a ser abaladas. Tal como a Cassie, também eu, enquanto assisti, me senti confrontada pelas minhas próprias visões feministas, tanto que, em alguns momentos, tive que clicar no botão de pausa para ir arejar as ideias. Dei por mim a ter empatia por muitas das questões que o autoentitulado movimento de homens abordou: a violência doméstica/no namoro contra homens, violação masculina, fraude na paternidade, guerras de custódia,... Habituei-me a pensar que, como uma mulher, eu nasci sem privilégios, que os homens tinham todos os privilégios do mundo e, turns out, há aspetos em que nós é que beneficiamos de mais vantagens do que eles. 

Apesar da natureza provocadora desta produção, achei impressionante o facto de, mesmo assim, esta conseguir distanciar-se da postura "masculinista", mantendo uma posição de neutralidade para que o espectador possa, por si mesmo, decidir qual a sua opinião - dando, ao mesmo tempo, voz às mulheres para estabelecer o paralelo entre duas perspetivas. Sinto que isto me permitiu criar mais simpatia pelos problemas que foram abordados pelos homens, em vez de me sentir a sofrer algum tipo de "lavagem cerebral" - até porque, em certos momentos do documentário, e sem querer desvalorizar muitos dos seus argumentos acertados,  senti que este movimento era tão tóxico como o feminismo radical. "Red Pill", ao mostrar os dois lados diametralmente opostos, faz-nos questionar porque é que existe tanto ódio de mulheres contra os homens e vice-versa, e qual ou se alguns deles é a verdadeira resposta contra a discriminação com base no género. 

O documentário sofreu e continua a sofrer inúmeras resistências por parte de distribuidoras (em alguns países até foi banido dos cinemas), ataques em exibições, resistências por parte dos serviços de streaming, famosos sites de críticas como o Rotten Tomatoes recusaram-se a fazer qualquer tipo de avaliação... Conhecendo bem o meu público alvo como conheço - essencialmente mulheres - sei que isto pode ser algo desconfortável para vocês, porém recomendo vivamente que vejam, mesmo assim. Como feministas (no verdadeiro sentido da palavra), acho que é importante estarmos abertos a outros pontos de vista, mesmo que estes entrem em confronto com aquilo que acreditamos toda a vida. Afinal, parte do movimento que tanto estimamos implica ter também empatia pelos problemas dos homens.

Ainda não estou pronta para desistir do feminismo completamente ao contrário daquilo que a jornalista afirmou no final (porque ainda há tanto por conquistar), porém sinto que este se tem afastado muito do seu propósito original, a igualdade, tem-se tornado demasiado radical, odioso, silenciando completamente os problemas e gender-roles com que os homens têm de lidar. Precisamos de reformular o movimento (quem sabe, com um novo nome mais neutro) que abrace em pleno a luta pela igualdade de géneros,  em vez de perpetuar esta guerra sobre qual o género que deve ter mais privilégios. 

(Se quiserem aprofundar o vosso conhecimento sobre o tema e saber mais sobre o porquê deste documentário, recomendo que vejam esta Ted Talk)

17.7.20

7 unpopular opinions de filmes da Disney

 7 unpopular opinions de filmes da Disney

Tal como prometido aqui, trago-vos hoje  unpopular opinions versão Disney. Peço desde já desculpa por serem opiniões mesmo à miúda dos anos 90, não consta aqui nenhum filme realizado depois de 2010, é só clássicos ou live-actions. Sorry not sorry.

(Atenção: este post contém spoilers dos filmes "A Bela o Monstro", "Alice no País das Maravilhas", "Mulan", "Frozen", "Cinderela",  "Dumbo" e "Aladdin".)


1. As animações deviam voltar a ser em 2D: A primeira opinião impopular não é de um filme específico, mas de uma característica comum a todos atualmente. Aparentemente, está na moda as produções serem em 3D, em que se vêem todos os poros das personagens. Meus caros amigos, eu se me ponho a ver desenhos animados, é porque quero ver mesmo desenhos animados, com os seus traços de rosto e de corpo toscos. E é possível ter na mesma um pouco de realismo de desenhos. Vejam este candelabro em a "Bela e o Monstro. Olhem bem os pormenores! E isto em 1998!


2. A versão live-action de "Alice no País das Maravilhas" é melhor que a original: Se me pedirem para explicar, eu nem o posso fazer porque, para ser sincera, a versão animada dava-me sono, eu nunca conseguia acabar de ver. Contudo, a versão de 2010 é encantadora, adiciona profundidade emocional à história, e este soundtrack com a Avril Lavigne é lindo (bons tempos na década de 2010s, em que ela estava na moda). 


3. Se calhar até é melhor que "Mulan" de 2020 não tenha cenas musicais nem o Shang: Inicialmente, quando saíram as primeiras informações sobre a nova adaptação da Disney, eu juntei-me à revolta dos restantes fãs. Como assim, não vamos ter as músicas clássicas, o Shang ou o Mushu?! How dare you estragar a minha princesa favorita de infância? Mas assim que vi este trailer arrebatador, eu mudei logo de ideias! Ao que parece, desta vez iremos conhecer a verdadeira lenda chinesa da Mulan e, para tal, a Disney tinha que tirar todos os elementos como a magia e o romance, que desrespeitam um pouco a cultura chinesa - e que, além disso, tirariam o foco do ponto central da história, a honra pela família acima de tudo o resto, mesmo do próprio país. Estou mesmo curiosa para ver esta versão mais adulta da personagem da Disney que mais me inspirou, que vai estrear em agosto. 


4. Frozen não é o primeiro filme a mostrar que uma rapariga não precisa de um príncipe para fazer feliz: É tão irritante quando dizem isto, e o pior é que parece ser a opinião geral. Não querendo puxar a brasa para a minha sardinha (leia-se, para o meu filme favorito), but hello, e a Mulan? "Mulan" saiu em 1998, aquilo na altura é que era muito à frente do seu tempo. Esse sim, é que foi o primeiro a falar de feminismo, não "Frozen". Malta, eu sei que alguns de vocês já nasceram depois de 2000, mas vejam os clássicos antes de fazerem afirmações destas. 


5. Cinderela tem um enredo muito fraco: Um minuto de silêncio antes de continuarmos, pela Cherry de 5 anos que adorava a Cinderela. A "Cinderela" foi o único filme da Disney que vi em adulta cuja magia se perdeu imediatamente. Com os outros eu consegui manter a nostalgia e a ligação emocional da infância. Mas neste, esqueçam, eu encontrei um enredo cheio de falhas. Quase todos o têm (porque não se tinham os mesmos cuidados que temos agora para criar histórias que realmente representem toda a sociedade), porém este é absolutamente aborrecido. Que princesa sem sal, que depende de um vestido bonito e de um sapato para ser feliz. 


6. Dumbo é simplesmente doloroso de se ver: Eu sei que, na altura, a intenção já era chamar a atenção para o abuso dos animais por puros fins de entretenimento (outro filme muito à frente do seu tempo, lançado em 1941!). Ainda assim, eu não consigo vê-lo, nem agora em adulta. Vi uma vez quando era pequena e foi o que me bastou para me ficar a alma a doer toda a vida. A cena que mais me atormenta a cabeça é quando a mãe de Dumbo é presa por simplesmente tentar proteger o seu filho bebé. E a cena dele bêbedo é, na minha opinião, uma das mais pesadas que a Disney já fez, tendo em conta que o seu público alvo são crianças.


7. Will Smith foi um bom Génio: Quando foi divulgado o elenco da live-action de "Aladdin", foram muitos aqueles que ficaram descontentes com a escolha de Will Smith. A verdade é que não deve ter sido fácil para a Disney escolher alguém para desempenhar uma personagem que, anteriormente, foi interpretada pelo lendário Robin Williams. Embora Will Smith nunca pudesse substituir este grande actor na perfeição, ele foi uma excelente escolha. Para fazer de Génio, era preciso ser cómico (óbvio!), ser dramático, saber cantar, dançar, e o ator sabia fazer isto tudo com distinção. 


E vocês? Quais são as vossas unpopular opinions sobre a Disney? 

9.7.20

5 razões pelas quais seres magro/a não te irá fazer automaticamente feliz

5 razões pelas quais seres magro/a não te irá fazer automaticamente feliz

Esta semana foi lançada uma capa da revista "Womens Health" que gerou um pouco de controvérsia. À primeira vista parece mais uma no meio de muitas, contudo, se olharmos mais a fundo, contém certos aspetos que podem dar azo a más interpretações. Portanto decidi ser mais uma blogger a falar do assunto. Não sou nutricionista nem psicológa, sou enfermeira, no entanto neste post não vou escrever sob esse papel, vou fazê-lo apenas como de mulher, e como uma outrora adolescente que  lia estas revistas e, apesar de já ser magra (supostamente o topo do padrão de beleza ocidental), me questionava porque é que tinha estrias e barriga a mais e aquelas mulheres das capas não. Mas isso era em 2000 e tal. Ainda me faz um pouco de confusão ver revistas em 2020 com esta linha editorial, numa era em que reinam as redes sociais que (à partida, muitas vezes não é o caso como todos sabemos) nos aproxima mais de pessoas reais.

Antes de mais nada, quero dizer que não tenho nada contra quem quer a mudar o seu corpo, aliás eu apoio todos os meus amigos que desejam embarcar na aventura da perda de peso. Tento é apoiá-los de forma a que não o façam pelos motivos errados nem de formas pouco saudáveis e duvidosas, para que este processo seja o mais satisfatório possível para eles.

Vou fazer apenas um breve resumo da situação que gerou polémica, para quem ainda não tem conhecimento e contextualizar o tema que quero abordar. A influencer que foi convidada pela revista afirma ter-se esforçado para perder peso nos últimos 7 meses. Até aqui tudo bem. O problema foram algumas afirmações que fez a seguir. Uma nutricionista no Twitter, a Helena Trigueiro, fez uma série de tweets que explicam melhor do que eu o porquê destas afirmações serem um pouco problemáticas, que  convido-vos a ver antes de continuarem a ler. 

Acima de tudo, aquilo desejo a todas as pessoas que estão a mudar o seu estilo de vida para se sentirem melhor consigo mesmas é que  esta mudança vos traga alegria, mas que percebam que esta acarreta que se façam mudanças interiores, nomeadamente a nível de autoestima, similarmente drásticas. Porque, momento chocante, ser magro/a não vos irá fazer automaticamente felizes (acreditem, eu sei do que falo, fui assim a vida toda), e passo a explicar porquê. 


1. Não vos vai dar mais autoconfiança: Ao contrário da crença popular, perder peso não nos aumenta a confiança automaticamente. Às vezes sim, até acontece, por ser a única coisa na nossa vida com a qual estávamos insastisfeitos, apenas medianamente (da mesma forma que quem está insastifeito com a cor do cabelo e o pinta de outro cor) porém, grande parte das vezes, esta necessidade está ligada a inseguranças muito mais profundas do que isso, talvez de anos, que precisam de ser trabalhadas com a mesma intensidade. O velho cliché dos filmes (embora um pouco inadequado) de uma pessoa dita "normal" que continua a ver-se como "gorda" é verdade. Aprendermos a amar o nosso corpo demora muito mais tempo do que emagrecer, e aceitarmos que, mesmo depois de uma mudança incrível, continuaremos a odiar coisas nele ainda custa mais a aceitar. É preciso tempo, muito tempo, muito apoio das pessoas que nos amam, e muitas frases positivas ao espelho para realmente aumentarmos a nossa autoconfiança.

2. Tira o foco da saúde: Algo que vejo muito nas redes sociais é o facto de estarem sempre a focarem-se no peso e não na saúde. Ser magro/a não vos torna automaticamente mais saudáveis. Eu que o diga que, quando era mais nova, comia imensas porcarias (principalmente chocolate, a minha perdição). Eu era magra, mas tinha zero de estilo de vida saudável. Agora sinto-me muito melhor que não bebo refrigerantes, bebo água todos os dias e tento ter uma alimentação o mais variada possível. Este ponto depende muito da forma que escolhem para emagrecer, se por uma via mais saudável ou menos saudável. E também, claro, de fatores que não controlam, como a genética, que podem influenciar o vosso índice de massa corporal. O mais importante, no final da mudança, não é número da balança, é o que vocês comem. 

3. Não vos vai dar amigos nem uma melhor vida amorosa: Não sejamos hipócritas, obviamente que a aparência tem um grande peso na formação nestes dois tipos de relações. Contudo, não é o único factor que importa na equação das relações humanas. Eu adoro uma citação que é muito ilustrativa daquilo que quero transmitir aqui - "beauty comes from within" (traduzindo, a beleza vem do interior). Eu falo por mim, eu automaticamente considero as pessoas mais bonitas consoante a personalidade. E não é preciso eu falar muito com elas, noto logo na primeira impressão, as pessoas em si transmitem uma energia muito própria que faz com que outras se interessem em falar com elas. Eu acho que essa é a verdadeira magia da socialização, mais do que uma boa aparência.

4. Pode não vos abrir mais portas: Mais uma vez, não sejamos hipócritas, uma boa aparência é importante em muitos sítios, até nas entrevistas de emprego. Mas não é tudo. Simpatia, à vontade, ser social e ter competências para a experiência oferecida são ferramentas que abrem muitas mais portas do que o vosso corpo (a não ser que sejam modelos, nesse caso ainda é o que pesa muito). Podem achar que sim, que perder peso vos abriu mais portas, porque lá está, tem a ver com o ponto 1, a vossa autoestima foi igualmente trabalhada  ao mesmo tempo, e isso teve muito mais influência numa oportunidade que tenham conseguido.

5. Não vos torna, no imediato, pessoas mais felizes com a vida: Emagrecer pode ser um passo para serem mais felizes, no entanto, na complexidade que são as vidas humanas, há tanta coisa que pode afetar a nossa felicidade, que considerar que isso é a garantia para sermos logo mais felizes é um pensamento falacioso. E não vejam isto como algo dececionante. Há tantas coisas que podem fazer para sentir alegria, todas uma luta diária mas, ainda assim, todas gratificantes no final. Emagrecer é a só uma delas, pensem nisto como um passo no grande plano de objetivos que podem atingir, não é entusiasmante existir possibilidades infinitas de sermos melhores?


Independentemente daquilo que a sociedade estabeleça como "bonito", o que importa aqui é gostarem ou aprender a gostar de vocês mesmos, e a imagem que vêem ao espelho corresponder à forma como se sentem, verdadeiramente bem.  

23.6.20

Reli "The Hunger Games" em adulta - e estas foram as coisas que me apercebi

 Reli "The Hunger Games" em adulta - e estas foram as coisas que me apercebi

(Atenção: Este post contém spoilers)

Este ano, estão a ser lançados vários livros de sagas antigas, como o Crepúsculo (que eu não vou ler, nunca fui fã), e do "The Hunger Games" (uma prequela que foi lançada em maio, "The Ballade of Songbirds and Snakes"). Como 2020 não está a ser nada de jeito, os autores parecem ter pensado que era melhor ideia fazer uma viagem no tempo a 2012. Neste pretexto, decidi fazer também uma viagem no tempo ao ler uma das sagas que me marcou a minha adolescência. 

A primeira vez que li a saga "The Hunger Games" eu tinha 16 anos, e reli-a agora, aos 23 anos - é, portanto, uma leitura muito diferente daquilo que me lembrava. Passaram 7 anos, afinal! Continua próxima do coração, mas há tantos pormenores que na altura me escaparam e outros que ficaram muito mais claros que antes.


1. Esta não é a tradicional história "O/a escolhido/a revolta-se contra o governo ": Esta é a principal fórmula utilizada em muitas das distopias  que conhecemos (como, por exemplo, " The Handmaids Tale"), em que a personagem principal é aquela que incita tudo, no entanto não isso que se verifica em "The Hunger Games". Aqui, Katniss é apenas uma jovem de 16 anos que, como seria de esperar em alguém da sua idade, não faz a mínima ideia do que fazer, muito menos no cenário de uma revolta/guerra. Ela assume-se como símbolo da rebelião, mas todo o seu percurso é traçado por conselheiros, como o Haymitch e o Cinna.

2. Foi o Cinna que lançou a faísca para a revolução: Esta foi a maior surpresa que tive ao reler a saga. Quando a li pela primeira vez, a minha ideia é que tinha sido a Katniss a lançar a faísca da revolução, logo a partir do momento que se voluntariou para salvar a irmã mais nova. Mas a verdade é que a sua coragem nunca seria o suficiente para criar uma revolução, sobretudo com a sua personalidade fria e distante. Quem realmente atirou a lenha para aquela que se tornou uma grande fogueira foi o Cinna. Por incrível que pareça, foram as suas capacidades como estilista que a tornaram visível e lhe deram o look de uma verdadeira rebelde, juntamente com a sua amizade tão fiel que partilhava com ele. Tanto que, em "Catching Fire", ele paga com a própria vida ao produzir um vestido que é uma verdadeira ofensa para o Capitólio - um vestido de noiva que se transforma num  Mimo-Gaio.

3. Katniss e Peeta tem papéis tradicionais revertidos: Aposto que quase ninguém notou nisto, porque estavam demasiado ocupados a apreciar o drama do triângulo amoroso, mas é um facto, o Katniss e o Peeta não só  não se conformam com os papéis tradicionais, como os revertem completamente. Katniss é uma caçadora profissional, corajosa, fria, enquanto que o Peeta é um padeiro, adora decorar bolos e é mais sensível. Suzanne Collins já a ser demasiado para a frente naquela altura!

4. Irrita-me que, a partir de determinado momento, a saga gire em torno do triângulo amoroso: Esta é uma das razões pelas quais eu odeio o terceiro livro. A história geral tem tanta profundidade e acaba por ser reduzida ao típico cliché de adolescentes. Além disso, na altura em que de "The Hunger Games" foi lançado, toda esta cena de triângulos amorosos já estava demasiado batida há que tempos!

5. O presidente Snow sangra da boca: Nunca tinha percebido muito bem esta parte, apesar de estar nos livros. Talvez porque na minha primeira leitura de "Mockingjay" eu tenha desligado em várias partes, de tão longo e secante que era. Eu pensei que era alguma patologia respiratória (alerta nerd nurse), mas estava errada. Aparentemente, o Snow, para subir ao poder, envenenou vários dos seus adversários ao longo dos anos. Deitava-lhes veneno nas bebidas, bebendo ele próprio veneno no seu copo, para não levantar suspeitas. Claro que tinha um antídoto, contudo isso não impediu que o Snow ficasse com lesões permanentes, daí a tosse com sangue. 

6. A Presidente Coin é a verdadeira vilã da saga: Tal como já disse, não me julguem, claramente que na altura eu pouco percebi do que se passava no terceiro livro (imaginem então o filme, que apenas era um mero resumo dos acontecimentos). Claro que eu já percebia que havia algo de off na Presidente Coin. Ainda assim, lembro-me de ficar super estupefacta quando a Katniss, no final, decide matá-la a ela em vez do Presidente Snow. A única explicação  lógica que encontrei para isso é que, com o trauma pós-guerra, ela tinha enlouquecido! Lendo agora aos 23 anos, ficou mais óbvio que nunca que a Presidente Coin não só mereceu ter morrido assim, como também é a verdadeira vilã da saga. Arrisco dizer que ela nunca quis saber da rebelião para nada, nunca quis saber dos 75 anos de opressão de Panem, apenas queria roubar o poder do Presidente Snow. Se a Katniss não a tivesse assassinado, Panem seria apenas uma versão diferente de opressão. 

7. A Katniss poderia ter acabado como o Finnick se não fosse a revolução: No início de "Catching Fire", é insinuado pelo próprio Finnick que ele "vende o corpo" em troca de segredos, o que contribui ainda mais para a sua imagem de egocêntrico. Todavia, no livro a seguir, descobrimos que ele, na verdade, fazia isto porque não tinha outra opção. Os vencedores mais jovens e bonitos dos Jogos da Fome tinham, muitas vezes, o mesmo destino, para pagar dívidas que nem todo o dinheiro do mundo poderia pagar (como, por exemplo, afrontas ao Capitólio). Isto já é mais uma teoria minha do que um facto, mas a Katniss, se não fosse a história dos "amantes condenados", poderia ter tido o mesmo destino, jovem e bonita como era também, para pagar pelo truque das bagas.


Já (re)leram esta saga? A que conclusões chegaram?

(Foto: da minha autoria)

18.6.20

Temos que normalizar o consentimento em crianças

Temos que normalizar o consentimento em crianças

Um dos traumas (na falta de melhor palavra, não que seja algo extremamente traumatizante comparado com outras questões, claro) que todos nós recordamos da nossa infância são os amigos dos nossos pais e familiares distantes que nos beijavam, abraçavam e apertavam as nossas bochechas antes de podermos sequer soltar uma lagriminha a demonstrar o nosso descontentamento. Isto para não falar do que quando éramos nós que éramos forçados a ser ativos nas demonstrações de afeto, "vai dar um beijinho ao tio" (o qual nunca o vimos na vida) ou "não se ignora as visitas, vai dar-lhes um abracinho". Ah, maravilhas da vida adulta, agora só cumprimentamos quem queremos e ignoramos o resto, graças a Deus, hehehehe. Isto, na altura, era um drama mais do que os adultos conseguiam compreender, era o fim do mundo para muitos miúdos.

O consentimento em crianças sempre foi uma coisa muito normal para mim, talvez por ainda ter bem presente este trauma na minha cabeça. Nunca dei um beijinho ou um abraço a uma criança sem antes lhe pedir, é automático, algo do género "és tão fofinha, posso dar-te um beijinho?. Às vezes a criança nem precisa de verbalizar para eu perceber aquilo que ela consente, se se aproximar tudo bem, se fugir para o colo da mãe, pronto, não a chateio mais, é simples. 

Acho que esta minha atitude também tem muito a ver com o facto de eu, agora, ser enfermeira. Em enfermagem, quando nós falamos na construção de uma relação terapêutica, nós nunca a tomamos por garantido, e isto também se aplica à pequenada. Claro que, em último recurso temos na mesma que realizar os procedimentos (nomeadamente, as vacinas, as que causam mais choradeiras), mas nunca o fazemos sem antes tentar ganhar a confiança de determinada criança. Uma criança mais à vontade e mais entretida pelo profissional terá mais hipóteses de colaborar do que uma em que essa relação tenha sido logo tomada como garantida. Se até em Enfermagem não tomamos isso por garantido, porque  o fazemos no nosso dia a dia?

Temos que perceber uma coisa de uma vez por todas: as crianças, embora ainda não sejam adultos, já têm indícios de traços de personalidade que se inclinam mais para o ser social ou para o ser mais recatado. Não podemos partir do princípio que todas as crianças são extrovertidas à nascença. São-no com quem conhecem, com quem convivem todos os dias, não significa que o sejam com toda a gente. Lá por serem, por natureza, divertidas e sem filtros, não quer dizer que seja sempre esse o seu modo de agir. Há crianças mais tímidas, em que estes atos de afeto "obrigatórios" as aterrorizam. E isto já nem entrando no tema das fases de desenvolvimento, em que as crianças estão a começar a aprender a "desapegar-se" dos pais e a desenvolver mais contactos sociais - é uma fase normal, algo que tem de ser ultrapassado, mas é com sensibilidade,  devagarinho, não é simplesmente forçá-las, de repente, a dar-se com toda a gente. 

Aliás, no que toca a relação sociais, os pequenos são quase iguais aos adultos: todas as relações se demoram a desenvolver, existem tempo (esta noção de tempo é que é um bocado diferente para eles), confiança e, muito importante, respeito pelo espaço pessoal. Por exemplo se,  aos 20 anos, um primo nosso nos apresenta um amigo, não lhe vamos dar logo um abraço como se o conhecêssemos há anos, porque motivo então é expectável que façamos isso quando temos 5 anos? Mesmo que essa pessoa faça parte da família, se não é costume ela ver a criança com frequência, não podemos esperar que ela tenha a mesma reação do que aqueles familiares que vê todos os dias, ou todos os fins de semana. Lá porque é conhecido dos pais não quer dizer que seja conhecido dos filhos. 

Temos que começar a educar os miúdos desde pequenos para a importância do consentimento: consentimento para afetos, para deixar ou não entrar no seu espaço pessoal, para brincar, e dar-lhes o direito de ficarem chateados caso este seja violado. Acho que esta autonomia é tão importante na vida adulta, porque um comportamento aparentemente inocente na infância pode desencadear relações abusivas no futuro. Quando crescerem, têm de ser capazes de avaliar corretamente se certa pessoa é ou não merecedora do seu afeto, definir os limites que não quer que sejam ultrapassados, reconhecer os seus direitos, e outras formas que podem usar para manifestar amizade (by the way, porque não normalizar que, se não quiserem dar beijinhos a todos os tios, podem mandar beijinhos para o ar, cumprimentos de mão,  high-fives, todas as formas que requerem pouco ou nenhum contacto físico?). 

Acho que insistir nesta temática não significa que estejamos a criar pessoas rudes e antissociais, estamos sim a criar pessoas que sabem respeitar-se e que não dão confiança a qualquer um. Temos que começar a normalizá-lo. Quanto mais cedo aprenderem, mais fácil será no futuro.

16.6.20

Como ser ativista sem ter que ir a protestos


Na faculdade, tinha uma colega minha que é aquilo que é considerado uma verdadeira ativista. Sempre com a argumentação on point, sempre calma e assertiva, nunca levantava a voz, sempre bem informada sobre aquilo que defendia, e que levantava a mão sempre que alguma causa que merecesse ser abordada surgia em contexto de sala de aula - talvez tenha até mudado a mentalidade de alguns colegas (não de todos, porque não basta haver mensageiro, é preciso, como em tudo na vida, existir recetividade por parte dos ouvintes). Em manifestações, era a que levava o megafone, a que fazia os cartazes, e até ela própria já chegou a organizar alguns protestos.

Eu revia-me sempre nela e nas causas que ela defendia. Contudo, nunca participei numa manifestação nem sequer levantei a mão numa sala de aula para falar de algo. Sendo eu uma pessoa introvertida, nunca fez o meu estilo. Não gosto de aglomerados de pessoas e, sempre que posso, evito falar para um grande público (as apresentações de escola eram a minha noção de inferno). 

Será que sou, desta forma, menos ativista do que aqueles que escolhem sair para as ruas? Creio que não. Existem várias formas de ativismo, começando pelo facto de sermos bem informados, empáticos até outras opções que vou falar hoje, mais introvert-friendly e, nos tempos em que vivemos atualmente, mais covid-friendly. 


1. Trabalhem com o vosso próprio círculo social: Apesar de odiar falar para grandes públicos, pequenos grupos já não constituem um problema para mim. E, se são como eu, podem começar por apostar no vosso círculo social, de familiares e de amigos. Há quem ache que é fazer pouco, mas podem chegar longe assim, se conseguirem mudar a mentalidade nem que seja de um familiar, esse familiar irá falar com outras pessoas que, por sua vez, irão falar com outras. É, no fundo, ativismo em cadeia. Talvez a probabilidade de serem ouvidos até seja maior, tendo em conta que são pessoas que gostam de vocês e que, à partida, respeitam as vossas opiniões - é  muito diferente do que falar com um grupo de estranhos.

2. Publiquem nas redes sociais: As redes sociais são o melhor meio de chegar ao maior número de pessoas sem ter que sair de casa. Mas, cuidado, usem-nas bem. Não publiquem nada sobre o qual não estejam suficientemente bem informados. E publicar apenas quadrados pretos do Instagram, para ser contra o racismo, por exemplo, não é o suficiente. Partilhem coisas que façam pensar, nem que seja uma citação ou a sugestão de um filme. A chave aqui é serem o mais relevantes possíveis.

3. Doem: Esta é uma opção de ativismo para aqueles que têm a carteira mais recheada. Existem diversas associações hoje em dia que defendem o mais variado tipo de causas tudo, à maior parte das vezes, à distância de um clique na Internet. Desta forma estão mesmo a financiar para que ações concretas sejam tomadas. 

4.Voluntariem-se: Trabalharem no backstage também é serem ativistas. Podem não participar ativamente num protesto, mas podem ajudar a organizá-la. Podem voluntariar-se também em associações que, não tendo qualquer fim lucrativo, carecem muitas vezes de pessoas que as ajudem. 

5. Façam ou assinem petições: As petições, sobretudo online, são uma forma de protesto, às vezes, muito mais eficaz do que fazê-lo nas ruas. São números concretos que provam que um certo número de pessoas é contra algo que esteja a acontecer no mundo. Os protestos, infelizmente, por vezes são acusados de serem barulho "desnecessário", porém contra números não há desculpas que possam ser inventadas. 

6. Deixa o teu cartaz falar por ti: Se quiserem envolver-se em alguma manifestação, sem porém, terem de gritar ou estar no meio daquela gente toda, ponham-se numa janela ou à margem, façam um cartaz e deixem que ele fale por si. 

7. Defendam aquilo que acreditam todos os dias: Não adianta de nada fazerem todos os pontos que referi acima se, quando confrontados com determinada situação no quotidiano, não fazem nada. Se, por exemplo, são contra o racismo, pratiquem isso todos os dias, nada de olhares preconceituosos nem até simples proteger a carteira, porque "ai, é preto, pode roubar-me". Algumas coisas foram tão incutidas no nosso subconsciente que vai ser difícil, ao início, largar esses hábitos, mas é um esforço que temos que fazer todos os dias, que as nossas ações se adequem, cada vez mais, àquilo que defendemos. 

21.5.20

7 Unpopular opinions de filmes famosos

7  Unpopular opinions de filmes famosos

Uma das redes sociais na qual eu passo a vida, além do Twitter, é no Reddit. É uma espécie de Facebook para nerds e - talvez por a maior parte dos usuários de lá serem anónimos - mais intimista. O que faz com que não tenham medo de expressar as suas opiniões, por mais polémicas que sejam. É mesmo por isso que adoro ler - vemos o ser humano no seu estado mais puro, com a suas inseguranças, tabus e pensamentos que nunca na vida admitiriam em voz alta.

E todos os amantes de cinema sabem que, à semelhança da política e religião, falar sobre este tema pode tornar-se uma conversa cheia de minas, de vez em quando. Existem aqueles filmes sagrados, que ninguém ousa falar, porque foram elevados ao prestigiado título de "clássico" sendo, por isso, quase intocáveis. Numa de quebrar essa barreira, surgiu uma publicação no Reddit que quis imediatamente replicar para o blog, Unpopular opinions sobre filmes famosos.

Nesta publicação vou falar dos mais clássicos. Desta lista, apenas um deles não se inclui nesta categoria, é mais recente. E como o cinema é a sétima arte decidi escolher sete filmes. Para não correrem o risco de spoilers caso não os tenham visto, digo já aqui quais foram os sete escolhidos: "Mean Girls", "Titanic", "Velocidade Furiosa", "Suicide Squad", "Avatar", " O Fantasma da Ópera" e  "Up".


1. A Cady foi a verdadeira vilã em "Mean Girls", não a Regina George: Sim, a Regina George não era nenhuma santa, contudo a Cady foi a que mais manipulou pessoas durante todo o filme. Acho que não estou a tirar o mérito a este clássico por ter esta opinião, continua a ser uma ótima sátira dos tempos do Secundário, só não acho bem andarem aí a idolizar a protagonista. 



2. Ainda bem que o Jack morreu em "Titanic": Honestamente, por muito que me custe ver o final de "Titanic" (e devo gostar muito de me torturar, porque já o vi mais de 10 ou 20 vezes), reconheço que é o único final digno que "Titanic" podia ter. Jack e Rose nunca na vida iriam ficar juntos. Não por culpa de Jack, por ser pobre, é mesmo por causa de Rose que, quer pelos padrões de vida da sua família ou as suas próprias expectativas, não ia querer ficar com um homem da classe dele. Agora se podiam ter escolhido outra forma para o Jack morrer, isso já era outra história, não concordo muito com a porta. 


3. A saga "Velocidade Furiosa" é sempre mais do mesmo: Após 3 filmes, começa a tornar-se aborrecido, e a atuação estupenda do elenco não é o suficiente. Não estou a reclamar com o facto de terem feito demasiados filmes, mas sim com o facto de usarem sempre a mesma fórmula. Vejamos o exemplo da saga "007", já tem mais de 50 anos mas continua super relevante no cinema, porque fazem sempre algo diferente e surpreendente. 


4.  O Joker em "Suicide Squad" não é assim tão fraquinho como dizem: Todos os amantes de cinema dizem que o Joker em "Suicide Squad" foi o pior Joker de sempre. Eu não vejo o porquê. O ator conseguiu capturar perfeitamente o espírito da personagem: tem a dose certa de psicopatia, o riso dele está on point e as cenas de ação são emocionantes. Aliás, eu nem percebo a discussão que existe em torno de qualquer o melhor Joker de todas as produções. Cada filme que já foi feito com um Joker diferente tem uma narrativa muito distinta, é impossível comparar todas as versões, porque cada uma das versões é a que se adapta a determinada história. Se tivesse que escolher o melhor claro que escolheria o Joker de 2020, porém para mim não faz sentido, porque foi o melhor naquela produção em específico e, se tivessem mudado a narrativa, provavelmente o ator escolhido já seria desadequado.


5. Eu acho "Avatar" super aborrecido: Agora nem tanto, mas em 2009 (o seu ano de lançamento), quem dissesse que "Avatar" era uma merda era apedrejado. Aquilo foi elevado ao nível de uma obra-prima, de algo "excecional, nunca antes visto no mundo do cinema".... Eu cá achei demasiado longo e maçudo. Pela altura que cheguei ao fim (se é que cheguei ao fim, já nem sei) já não me recordava do início. Sim, não se pode negar que as técnicas usadas naquele filme foram impressionantes, algo muito avançado para a tecnologia que existia na época. Mas foi apenas isso, um exibicionismo técnico, o enredo tinha zero de profundidade.


6. A Christine nunca poderia ter escolhido Erik: O "Fantasma da Ópera" é o meu musical favorito de sempre, sem sombra de dúvidas! E parte do meu encanto por ele é o mesmo que todas as mulheres, o facto do Fantasma da Ópera ser atraente e misterioso, e toda a magia da sua relação com a Christine. Contudo, ao contrário de muitas fãs, seria impensável para mim dizer "se fosse a protagonista eu tinha ficado com o Erik". Porque, malta, aquilo não era romance, aquilo era obsessão! Eu não estou a discriminar pelo seu passado traumático e cara desfigurada, eu rejeitaria-o por todas as suas atitudes que são de um psicopata. Todos as atitudes tem são aquelas que normalmente classificam uma relação tóxica: a proibição de conviver com outros homens (o Erik tinha muitos ciúmes de Raoul), o modo como não olhava a meios para atingir fins (chegou a matar pessoas para favorecer Christine), os ultimatos,... E, mesmo que estes fatores não tivessem envolvidos e Erik fosse um homem normal, Christine nunca o teria escolhido, porque o que ela sentia era apenas admiração, ela sentia era amor por Rauol. Se querem saber, eu na verdade não escolhia nenhum dos dois, a não ser que tivesse a opção de escolher o Rauol do livro - o do filme é tão sem sal, descontextualizado, no livro realmente percebemos a sua relação com a protagonista e o porquê de ser tão importante na vida dela.


7. O início do filme "Up" não é tão devastador como as pessoas o pintam: E para acabar este post polémico heheheh, escolhi um filme da Disney (by the way, agora apetece-me também fazer toda uma versão de unpopular opinions só com a Disney), o famoso "Up" que ainda hoje me parte o coração só de pensar nele. Mas não pelo motivo que pensam. Para mim, só a segunda metade do filme, em que ele tem que aprender a viver sem a sua mulher é que é angustiante. Toda a parte inicial, do começo de uma relação à construção de uma vida matrimonial parece-me muito feliz. Sim, eles tinham o sonho de ter um filho e não conseguiram, assim como não conseguiram fazer outras coisas que tinham planeado. Ainda assim, conseguiram aproveitar o melhor que a vida lhes tinha para oferecer - e a vida não é mesmo assim, aproveitar ao máximo mesmo que certos planos tenham saído furados? A visão que a maior parte dos espectadores têm acerca de "Up" mostra que, enquanto sociedade, ainda temos ideias muito fixas acerca daquilo que caracteriza um casamento feliz.



Concordam com estas unpopular opinions? Quais são as vossas?

21.3.20

Ter acabado o curso mais tarde faz de mim burra?

Ter acabado o curso mais tarde faz de mim burra?

(As socas que me acompanharam nos meus 4 anos e meio de estágios em Enfermagem. Faziam-me doer os pés, mesmo com as palmilhas que eu lhes coloquei  numa tentativa, em vão, de as tornar mais confortáveis. Estive para comprar umas novas, mas dei por mim a não me conseguir desfazer deste calçado que me acompanhou desde os 18 aos 22 anos. Fizeram-me doer os pés, tal como o meu percurso me causou dores de crescimento. E tentei torná-las mais confortáveis mas, tal como este mesmo percurso, nem sempre é possível fazê-lo, porque aprender nem sempre é confortável. Mas, no final, orgulho-me de olhar para elas, assim como para todo o meu percurso)

Todos nós conhecemos aquela malta da faculdade que anda por lá a passear livros e a acumular matrículas. Aquelas pessoas que levam com o famoso comentário "oh prima, ainda andas na faculdade?". E, por muito que isto nos confira o estatuto de Cardeais ou de Veteranos na praxe (dependendo das tradições da universidade que frequentamos), ninguém suficientemente empenhado na sua vida quer ser esse tipo de estudante. Eu certamente que não queria.

Quando entrei para a faculdade, aos 18 anos, na minha primeira opção (tal como as expectativas sociais o ditavam), eu jurei a mim mesma que não iria ser esse tipo de estudante. Que nunca iria deixar cadeiras para trás ou que iria reprovar no que quer que fosse, nem numa única frequência. Mas a vida decidiu-me atirar com um grande balde de água fria, como o faz de vez em quando.

Como os leitores mais atentos devem saber, há 3 anos eu reprovei num dos meus estágios do 2º ano. Em parte foi por motivo de doença (uma inflamação de intestino que, sei agora, poderá ter sido desencadeada por uma grande crise de ansiedade),  mas isso não me impediu de ser muito dura comigo mesma. Fiquei absolutamente desolada! E estaria a mentir se dissesse que foi apenas por saber que a minha entrada no mundo profissional iria ficar adiada. Não, a verdade é que esta reprovação foi também uma valente facada no meu ego. 

Toda a minha vida, eu fui sempre uma boa aluna. Nunca fui um "crânio", nunca cheguei a esse patamar, mas fui sempre uma aluna com um bom percurso académico: sempre com 4s e 5s no Básico  (tirando a Educação Física e a Artes Visuais, nisso era uma "nódoa") e 17s e 18s no Secundário. Aquela aluna que ouvia muitas vezes "esta vai ter  futuro".  Nunca reprovei em nenhum ano, disciplina ou teste. Portanto, agora já estão a visualizar melhor o choque que foi quando soube que reprovei num estágio no meu 2º ano de faculdade. 

Este acontecimento deixou-me com a confiança muito abalada. Eu, que sempre me habituei a ver-me de certa forma que alguém que, por muito que entrasse em stress com as notas, sabia que de certo patamar nunca descia - porque era inabalavelmente empenhada - perguntei-me porque é que falhei. Sentia-me burra, igual àqueles que acumulam matrículas. Tive vontade de desistir do curso porque, de repente, achava que não tinha perfil nenhum para ser enfermeira. Felizmente, tive pessoas que me ouviram e me, apoiaram qualquer que fosse a minha decisão, mas que disseram para eu esperar, para continuar. Se depois chegasse mesmo à conclusão que queria desistir, ia sempre a tempo. Porque, meus amigos, desistir não tem mal nenhum. Mas quando estão com a confiança fragilizada e a motivação lá no fundo, a vontade de desistir pode ser apenas uma partida do vosso cérebro, das vozes negativas que lá habitam. Não se toma este tipo de decisão quando a vossa saúde mental está uma merda, e estou grata por ter tido pessoas que não mo deixaram fazer logo na hora. 

O estágio seguinte do 2º ano (em ortopedia para os curiosos), fez-me recuperar parte da minha motivação. Descobri ali uma das primeiras áreas pela qual me interessava muito. No 3º ano, o ano das especialidades, recuperei ainda mais, com uma variedade de áreas que me atraíram e me fizeram relembrar o motivo pelo qual eu escolhi Enfermagem.

Com a ideia de desistir finalmente fora da cabeça, isso não significa que eu não tenha passado o resto do curso a duvidar do meu valor na mesma. Fiquei de tal forma com o trauma daquela reprovação que suspirava de alívio a cada estágio que não reprovava, mesmo que, a maior parte das vezes, o meu desempenho fosse muito mais que satisfatório, eu trabalhasse para mais do que isso e, em alguns casos, eu chegasse até ao 16 ou 17. É estúpido, eu sei, mas tentem dizer isso ao meu cérebro ansioso. Só descontraí mesmo quando acabei o curso, com 16 no Estágio de Integração. Mas, pela primeira vez em muito tempo, vi mais para além do resultado final.

Foi no meu Estágio de Integração que eu acabei por me sentir uma verdadeira enfermeira. Com a ajuda de dois grandes orientadores (do centro de saúde onde estagiei e do hospital), aprendi a reconhecer as minhas competências, a minha paixão por aquele curso e, mais importante que tudo, a minha dedicação presente em todos os momentos. Resumindo, aprendi a dar mais valor ao meu desempenho do que ao resultado final. Foi aí que deixei o medo de não ser boa o suficiente me deixasse de perseguir. E aqui estou eu agora, uma licenciada orgulhosa e que tem tantas competências como quem acabou em junho. 

Assim, a pergunta que aqui se coloca é: ter acabado o curso mais tarde (6 meses mais tarde, foi uma sorte ter conseguido o meu estágio em Época Especial) faz de mim mais burra que os outros? Faz de mim uma pior enfermeira? Faz de mim uma estudante desleixada? A resposta é não, não e não. Nada na vida é assim tão linear, e isso aplica-se também ao mundo universitário.

As perguntas que deveríamos estar, antes, a fazer é: porque é que somos tão duros connosco mesmos, mesmo quando não podemos controlar tudo o que nos acontece? Porque é que sentimos que estamos numa corrida contra os outros? Porque é que sentimos que um único acontecimento negativo nos define completamente?

A universidade é dura. A frase "é fácil entrar, difícil é sair" não é uma mera piada universitária. É porque é mesmo difícil para caraças! Os cursos são cada vez mais exigentes, e somos também apanhados na transição da adolescência para a vida adulta, algo que nos causa muitas dores de crescimento. Nada disso é fácil. Por isso, temos que parar de sentir necessidade de sermos constantemente os melhores. O sucesso não é nenhuma corrida. O mais importante é  aprendermos ao nosso ritmo  e termos fé que concretizaremos os nossos sonhos, demore o tempo que demorar. Quer isso signifique acabar o curso aos 23, 24 ou 25 anos (aí ainda têm toda uma vida pela frente na mesma) quer isso implique congelar matrículas e fazer uma pausa para recuperar a nossa saúde física e/ou mental, ou quer isso implique passar por isto tudo e chegar à conclusão "afinal, não é isto que quero, quero mudar de curso". No entanto, o que quer que escolham fazer, não deixem que estes anos, que devem ser dos mais felizes da vossa vida de estudante, vos destruam por dentro. O futuro será sempre sorridente para aqueles que lutam por ele.

(Foto: da minha autoria)

5.3.20

Aprender a conduzir quando se tem ansiedade

 Aprender a conduzir quando se tem ansiedade

Há algo que ninguém diz quando se fala em tirar a carta de condução: o stress inerente a este processo. Toda a gente gosta de pintar a as aulas de condução como muito cor de rosa, com unicórnios a saltar, como se fosse algo natural para toda a gente. "Ah, vais adorar conduzir", "vais ver, 5 aulas e pumba, já apanhas logo o jeito".  Nem sempre é assim. Sobretudo para quem sofre  de ansiedade.

Imaginem uma pessoa que sofre muito com a ansiedade, que sofre sempre por antecipação (imaginando todos os piores cenários que podem acontecer), que se torna distraída à conta disso e que até experiencia sintomas físicos (como palmas da mão a suar, dores de cabeça, palpitações no coração,etc.). Agora, imaginem essa pessoa a conduzir. Pois, agora sim, já estão a imaginar o drama. Ter aulas de condução pode ser stressante para toda a gente mas, para quem sofre de ansiedade, ter aulas de condução pode chegar até a ser algo doloroso.

Sempre fui uma pessoa muito ansiosa, embora no passado fosse pior mas, infelizmente, ainda afeta negativamente  a minha vida  de muitas formas. No geral, as minhas aulas de condução até foram uma experiência bastante positiva, mas demorei uma quantidade absurda de tempo a conseguir arranjar estratégias eficazes para controlar a minha ansiedade. Sinto que, se não fosse a ansiedade, eu tinha aprendido a conduzir muito mais depressa. Bem, mas se estou aqui a escrever este post é porque consegui (já tenho a carta há 4 meses, yay!), e hoje estou aqui para falar disso mesmo. Acho que vai ser interessante. Apesar das publicações sobre a carta de condução que já vi pela blogosfera, ainda não vi ninguém a falar sobre este problema em específico, e sinto que vai ser muito útil (principalmente se forem como eu, que antes de se lembrar de desabafar com alguém, vem ao Google buscar respostas, mesmo sabendo que é um mau hábito).


1. Escolham bem o vosso  instrutor (e se não gostarem dele, troquem!): Durante todo este processo, a relação mais importante que vão ter (e na qual têm que trabalhar também) é na relação com o vosso instrutor de condução. Duas coisas que nunca ninguém fala e que nunca é demais relembrar: podem escolher o vosso instrutor e podem trocar sempre que quiserem. Trocar de instrutor nem sempre significa que ele seja mau, às vezes apenas significa que não tiveram compatibilidade, que a sua forma de ensinar não era compatível com a vossa personalidade. Eu poderia fazer um post inteiro sobre o impacto de um bom instrutor numa pessoa ansiosa, e então numa pessoa introvertida, aí é que daria muito que debater. Sentirem-se ou não confortáveis com o vosso instrutor vai influenciar IMENSO toda a experiência de aprendizagem.

2. Peçam ajuda a alguém para escolher um instrutor: Embora nenhum instrutor seja o certo para toda a gente, poderão sentir-se mais confiantes se escolherem alguém que já tenha ensinado um familiar/amigo vosso e que vos tenha dado um bom feedback sobre ele. O meu instrutor ensinou os meus primos, portanto eu já sabia um pouco sobre ele e, por isso, até já tínhamos do que falar. Se isto não for algo possível para vocês, outra ideia muito boa é conhecerem um instrutor antes de escolherem: falarem 5 minutos com ele, para conversarem sobre o que esperar e como se vão proceder as coisas (sim, podem fazer isto, lembrem-se, são vocês que estão a pagar).

3. Saibam o que esperar de cada aula: Eu consigo sempre gerir melhor a minha ansiedade quando sei o que vai acontecer, e aposto que com muitas pessoas também é assim. Conversem com o vosso instrutor para saber aquilo que vão fazer em cada aula.

4. Pensem um passo de cada vez: Embora o ponto 3 possa ser importante para nós, pessoas ansiosas, também temos que ter consciência que não conseguimos prever tudo, sobretudo num meio que, por si só, é tão imprevisível. Por isso, em vez de estarem numa ponta da cidade e de já estarem a pensar na manobra que vão fazer dali a 5 km, pensem apenas um passo de cada vez.

5. Não oiçam muitas experiências de outras pessoas: Normalmente, costuma-se aconselhar o contrário mas, neste caso, acreditem quando vos digo para não o fazerem. As pessoas, no que toca a sua aventura na carta de condução, não são lá muito sinceras. A maior parte não gosta de admitir as vezes em que deixaram ir o carro abaixo, as vezes em que fizeram mal uma curva ou contornaram mal um passeio, as vezes em que quase atropelaram uma velhinha e muito menos se reprovaram no exame. Peçam conselhos apenas às pessoas que sabem que vão dar-vos um opinião sincera.

6. Entrem num estado de espírito harmonioso antes de cada aula de condução: Algo que, provavelmente, já devem ter ouvido nas aulas de condução é que as vossas emoções têm um grande impacto no ato de conduzir. E não só são as emoções extremas como a tristeza ou angústia, às vezes um pouco de ansiedade ou uma mentalidade ligeiramente pessimista podem tornar uma aula desastrosa. Quando estamos assustados, o nosso corpo fica tenso. A ansiedade pode pôr-nos num constante modo fight or flight, o que nos põe suar, com o coração a bater descompassadamente, entre outras coisas que  não são o ideal para uma condução tranquila. Quando comecei a tirar a carta, eu costumava sair das aulas com o meu corpo a doer de tão tensa que eu estive. À medida que fui ficando mais confiante, esta sensação desapareceu. Todavia, não teria acontecido se eu tivesse sido mais proativa nisso. Tentem encontrar estratégias para acalmar os nervos. Se não o conseguirem fazer, certifiquem-se, pelo menos, que estão a dar a vocês mesmos a melhor chance possível. Durmam bem no dia anterior, certifiquem-se que têm tempo suficiente para tomar o pequeno-almoço se a aula for de manhã , e reservem tempo para simplesmente respirar um pouco. Se em algum dia se sentirem muito stressados com outras tarefas do quotidiano ou simplesmente cansados, desmarquem a aula. Por vezes, é preferível assim do que andar a desperdiçar aulas e depois ter que pagar mais. 

7. Aproveitar os semáforos vermelhos para respirar fundo: Durante a condução, não há muito tempo para pensarmos naquilo que estamos a sentir porque temos que estar atentos a tudo o que se está a passar na estrada. As nossas únicas oportunidades para o fazer é mesmo durante as luzes vermelhas dos semáforos . Nessa altura, aproveitem sempre para se acalmarem, descansar um pouco os pés (se os semáforos forem daqueles que têm o tempo, senão mantenham-se sempre prontos para arrancar) e colocarem-se no estado de espírito correto (caso não o tenham feito antes).

8. Pratiquem fora das aulas: Não na estrada mesmo, porque isso seria perigoso, mas em estradas privadas, sem movimento. Isto é bastante útil numa fase inicial, quando ainda não conseguem dominar bem o carro, e mesmo perto do exame, quando querem treinar manobras como a inversão de marcha ou o estacionamento. Não digam que fui eu que sugeri isto, é ilegal. Quanto mais praticarem, mais confortáveis se vão sentir a conduzir. Reservar tempo àquilo que nos dá ansiedade é difícil (a tendência é sempre fugirmos), mas cada vez mais me apercebo que todo o nervosismo está no quão difícil parece, não na ação propriamente dita.

9. Vocês vão conseguir conduzir: Melhor ou pior, todos nós conseguimos conduzir. Não há ninguém que não o consiga. Pode parecer que nunca vão conseguir fazê-lo, podem até já ter reprovado algumas vezes por esta altura, mas não desistam. Não importa quanto tempo demore, vocês chegar lá. E quanto a ansiedade, vai acabar por passar, eu agora, quatro meses depois de obter o famoso cartãozinho azul, já não sinto quase nenhuma (embora ainda tenha que ganhar muita experiência a conduzir, claro).


Como foi a vossa experiência na carta? Também eram muito ansiosos? Que conselhos dão àqueles que estão agora a começar e sofrem do mesmo mal?