Numa altura em que o feminismo anda nas bocas do mundo, pouco se fala sobre algo que ainda é bastante comum na maior parte dos estabelecimentos noturnos. Parece que andamos a jogar um jogo de ignorar o óbvio.
Todos nós, mais novos ou mais velhos, certamente já estamos familiarizados com as famosas "Noites da Mulher" nos bares e discotecas. Na maior parte dos estabelecimentos, a promoção consiste em entradas mais baratas para as mulheres e ofertas de três bebidas, mas há outros que elevam mais a fasquia nessas noites e oferecem entrada gratuita.
Quando falamos de igualdade de género convém percebermos que privilégios com base no género não entram nem devem entrar na equação. Igualdade é igualdade, não funciona só quando nos convém, sejamos homens ou mulheres. Vejo muitas mulheres a defender com garra o feminismo, e depois a aceitar este tipo de ofertas porque "ah, nós já somos prejudicadas em tantos aspetos, temos que aproveitar aonde temos vantagens".
Às mulheres que se aproveitam destes descontos, convido-vos a irem mais a fundo e refletirem no que está implícito quando se aceita uma oferta como esta. Não sejam ingénuas: os proprietários não pretendem ser simpáticos ou cavalheiros, tudo o que ambicionam é o lucro. Como se costuma dizer, não há almoços grátis. Este suposto benefício não passa de mais uma forma de explorar a beleza feminina para atrair o público masculino, cujos consumos de álcool, apesar de o paradigma atual ter mudado, ainda continuam mais elevados. Uma vez ouvi dizer o seguinte: se vocês não pagam pelo produto, significa que o produto são vocês.
No entanto, desenganem-se se pensam que as "Noites da Mulher" são apenas mais uma forma de sexismo exclusivamente dirigido às mulheres. Isto das entradas mais baratas/gratuitas para o sexo feminino é discriminatório para ambos os lados. As mulheres são usadas como "isco" para movimentar o negócio e atrair homens, e os homens são penalizados no acesso aos estabelecimentos, tendo que pagar muitas vezes o dobro, isto para não falar que estão a ser tratados como animais que precisam ser atraídos por algo. Estão, basicamente, a assumir, que todos os homens não vão a estes espaços de lazer por mera diversão, vão apenas para irem à "caça". Quão ofensivo é isto?
Além destas questões, as Lady Nights (como são conhecidas no estrangeiro) perpetuam outras formas de sexismo e estereótipos que passam mais despercebidos, mas que são igualmente errados: a ideia que as mulheres são incapazes de pagar as suas próprias bebidas e que têm que esperar que alguém as aborde, e a ideia que de que são os homens que têm que pagar as bebidas e serem os primeiros a meter conversa.
Não sou muito de sair à noite, mas das poucas vezes que saio certifico-me que não seja em noites destas. Não só seria hipócrita da minha parte defender a igualdade de género e depois aproveitar ofertas destas, à descarada, como também me sentiria mal por estar a ser discriminada e a discriminar os outros ao mesmo tempo.
Mulheres: ficar sem a "Noite da Mulher" poderá ser mau para a vossa carteira, mas será bom para a vossa dignidade. Homens: Não tenham medo de assumir as situações em que também estão a ser discriminados, cheguem-se à frente e falem. Toda a forma de discriminação, por muito subtil que seja, continua a ser discriminação. Não as ignorem por conforto.






