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17.5.18

Porque decidi não colocar emblemas na minha capa

Porque decidi não colocar emblemas na minha capa

Ir para a universidade sempre foi um grande sonho para mim. Não só para seguir algo que me apaixona, mas por todas as tradições que se vivem nesta grande etapa da vida estudantil. Sempre achei que todas estas tradições académicas como a praxe, as serenatas, a latada, o Cortejo e as semanas académicas tinham muito encanto. Mas aquilo que sempre ansiei mais foi o momento em que poderia trajar. Acho que trajar pela primeira vez é o ponto alto da vida académica de um estudante: representa toda a caminhada que fizemos até este momento, todas as nossas conquistas, todos os nossos sonhos, os momentos que vivemos enquanto estudantes mas, acima de tudo, tem uma história que já começou a ser escrita muito antes de nós, uma história de muitos outros estudantes que também já passaram pela universidade. 

Por tudo o que representa o traje académico, imaginei muitas vezes na minha cabeça a altura em que poderia finalmente trajar. Imaginei mais vezes do que seria aconselhável, na verdade, uma vez que quando se criam muitas expetativas estas, frequentemente, saem furadas (mas não foi o que aconteceu neste caso). E durante estes anos sempre me interroguei se iria usar ou não emblemas na capa.

Durante algum tempo, estava convencida que iria usar emblemas na capa. Gostava da tradição que existia das pessoas que nos são mais próximas oferecerem -nos emblemas e da forma como estes poderiam contar a história da minha  vida académica. 

Contudo, ao longo dos anos, fui observando muitos universitários (o meu passatempo favorito quando era mais nova era observar os universitários, para me motivar para estudar mais) e comecei a sentir que usar emblemas era um bocado consumista. Não me interpretem mal, não estou a julgar quem escolheu usar emblemas, mas acho que existem muitas pessoas que os colocam na sua capa a torto e a direito. É o emblema da mãe, do pai, da irmã, dos amigos, do vizinho, do clube futebolístico, mais uns quantos com umas piadas, mais outros das bandas de música favoritas... Acabam por colocar numa quantidade exagerada e, a certa altura, não sei se estão a contar a sua própria história ou a dar dinheiro às lojas dos trajes.  Por outro lado, observava aqueles que tinham optado por deixar a sua capa negra. Aqui no Norte são poucos os que fazem isso, mas na zona de Coimbra e de Lisboa são muitos os que optam por deixar os emblemas numa caixa e trajar desta forma. A pouco e pouco, fui-me inclinando cada vez mais para me juntar a este grupo de estudantes.Por estas razões, não vou colocar emblemas na minha capa.  Além de cumprir todas as regras subjacentes ao bem trajar, decidi "ser "capa negra", como uma espécie de homenagem às origens do traje académico. 

Sempre que trajar, lembrar-me-ei sempre daquilo que o traje representa: um símbolo uniformizador, para minimizar as diferenças sociais e económicas de todos os estudantes. Numa altura em que muitos estudantes sentem dificuldades em pagar propinas e prosseguir os seus estudos, este é também o meu pedido silencioso para o Ensino Superior ser considerado um direito e não um luxo.

Na sexta feira passada trajei pela primeira vez nas Serenatas. Trajei ao lado de pessoas que me têm acompanhado diariamente e pelas quais nutro grande carinho. Trajada, de capa traçada, fui apenas mais uma universitária no meio de tantos outros de uma academia da qual orgulho-me muito em pertencer.  Não preciso de emblemas para contar a história da minha vida académica. Um dia, quando a minha capa estiver arrumada e eu voltar a olhar para ela, lembrar-me-ei de tudo o que vivi. 

24.4.16

O respeito pelo Traje Académico ( ou a falta deste)


Há uns dias atrás, vi esta publicação na página do facebook Memes UM e fiquei ao mesmo tempo chocada, triste e revoltada. Partindo do princípio que o que se vê na imagem é mesmo verdade ( pois não está muito claro se, de facto, os Doutores estão sem a capa), a mesma levanta vários problemas: primeiro, os Doutores não estão a respeitar nem o Código de Praxe nem o próprio traje, segundo porque os caloiros estão a aceitar ser praxados por Doutores que não estão devidamente trajados para o fazer. Portanto, é difícil dizer o que é que me perturba mais nesta imagem.

Ainda nesta publicação, surgiram vários comentários, uns a defender o bom uso do Traje Académico e outros a dizer " ah e tal, mais vale trajar mal do que andar por aí a comer caloiras...". A essas pessoas, sinceramente, não sei o que é pior, a mim parecem-me ser igualmente más e, mesmo que não fossem, não me parece que comparar uma coisa má a outra pior, torne algo menos mau.

O Traje Académico não é um simples conjunto de roupa, é algo cheio de simbolismo, tradição e História. O Traje representa a uniformidade social e económica, significa a igualdade entre todos os estudantes universitários ( quer sejam da praxe ou não). Custa-me ver pessoas que não percebem o simbolismo associado a este, e que trajam só por trajar.

Trajar pode ser, sim, um bocado doloroso. Não é fácil trajar quando estão quase 40 ºC, quando a nossa única vontade  é estar toda a tarde numa piscina. Também não é nada fácil quando está um frio de rachar e está a chover " a potes". O próprio traje em si, em condições meteorológicas normais, já é desconfortável: "pica" muito e faz comichão na pele,os sapatos magoam muito e fazem bolhas nos pés,... No entanto, nada disto serve de desculpa para se trajar mal.

Independentemente das razões pelas quais o fazem, se querem trajar, trajem como deve ser. As regras do " bem trajar" variam muito de universidade para universidade, mas aqui na Universidade do Minho para se trajar bem tem que se usar TODOS os elementos do traje, incluindo o tricórnio na cabeça e a capa ( traçada, nos ombros ou no braço), as raparigas não podem usar maquilhagem nem qualquer tipo de bijuteria, e quando se traja não se pode usar guarda-chuva ( só outra pessoa não trajada é que pode usar guarda-chuva e " abrigar-vos"). Se forem da praxe, se quiserem praxar os vossos caloiros, só o poderão fazer bem trajados e com a capa "traçada". Se querem trajar , respeitem estas regras ou não o façam de todo.

Durante o tempo que eu tive na praxe, os meus Doutores respeitaram sempre estas regras. Além disso, fartavam-se de dizer que, quando algum Doutor não estivesse trajado ou não estivesse bem trajado, que não aceitássemos nem cumpríssemos as ordens desse mesmo Doutor. Sinto-me orgulhosa e sortuda por ter tido Doutores assim, que nos ensinaram bem o Código de Praxe e a "a arte de bem trajar, e que não fizeram figuras tristes como os da imagem que referi. Ainda não sei se vou trajar este ano, porque não sei se vale a pena gastar tanto dinheiro para só usar o traje em algumas ocasiões especiais ( além disso, não quero sobrecarregar ainda mais os meus pais com despesas), mas se trajar será como os meus Doutores me ensinaram.


( Foto: Jornal Online da UMinho)