Ir para a universidade sempre foi um grande sonho para mim. Não só para seguir algo que me apaixona, mas por todas as tradições que se vivem nesta grande etapa da vida estudantil. Sempre achei que todas estas tradições académicas como a praxe, as serenatas, a latada, o Cortejo e as semanas académicas tinham muito encanto. Mas aquilo que sempre ansiei mais foi o momento em que poderia trajar. Acho que trajar pela primeira vez é o ponto alto da vida académica de um estudante: representa toda a caminhada que fizemos até este momento, todas as nossas conquistas, todos os nossos sonhos, os momentos que vivemos enquanto estudantes mas, acima de tudo, tem uma história que já começou a ser escrita muito antes de nós, uma história de muitos outros estudantes que também já passaram pela universidade.
Por tudo o que representa o traje académico, imaginei muitas vezes na minha cabeça a altura em que poderia finalmente trajar. Imaginei mais vezes do que seria aconselhável, na verdade, uma vez que quando se criam muitas expetativas estas, frequentemente, saem furadas (mas não foi o que aconteceu neste caso). E durante estes anos sempre me interroguei se iria usar ou não emblemas na capa.
Durante algum tempo, estava convencida que iria usar emblemas na capa. Gostava da tradição que existia das pessoas que nos são mais próximas oferecerem -nos emblemas e da forma como estes poderiam contar a história da minha vida académica.
Contudo, ao longo dos anos, fui observando muitos universitários (o meu passatempo favorito quando era mais nova era observar os universitários, para me motivar para estudar mais) e comecei a sentir que usar emblemas era um bocado consumista. Não me interpretem mal, não estou a julgar quem escolheu usar emblemas, mas acho que existem muitas pessoas que os colocam na sua capa a torto e a direito. É o emblema da mãe, do pai, da irmã, dos amigos, do vizinho, do clube futebolístico, mais uns quantos com umas piadas, mais outros das bandas de música favoritas... Acabam por colocar numa quantidade exagerada e, a certa altura, não sei se estão a contar a sua própria história ou a dar dinheiro às lojas dos trajes. Por outro lado, observava aqueles que tinham optado por deixar a sua capa negra. Aqui no Norte são poucos os que fazem isso, mas na zona de Coimbra e de Lisboa são muitos os que optam por deixar os emblemas numa caixa e trajar desta forma. A pouco e pouco, fui-me inclinando cada vez mais para me juntar a este grupo de estudantes.Por estas razões, não vou colocar emblemas na minha capa. Além de cumprir todas as regras subjacentes ao bem trajar, decidi "ser "capa negra", como uma espécie de homenagem às origens do traje académico.
Sempre que trajar, lembrar-me-ei sempre daquilo que o traje representa: um símbolo uniformizador, para minimizar as diferenças sociais e económicas de todos os estudantes. Numa altura em que muitos estudantes sentem dificuldades em pagar propinas e prosseguir os seus estudos, este é também o meu pedido silencioso para o Ensino Superior ser considerado um direito e não um luxo.
Na sexta feira passada trajei pela primeira vez nas Serenatas. Trajei ao lado de pessoas que me têm acompanhado diariamente e pelas quais nutro grande carinho. Trajada, de capa traçada, fui apenas mais uma universitária no meio de tantos outros de uma academia da qual orgulho-me muito em pertencer. Não preciso de emblemas para contar a história da minha vida académica. Um dia, quando a minha capa estiver arrumada e eu voltar a olhar para ela, lembrar-me-ei de tudo o que vivi.





