Há uns tempos atrás li uma notícia que é, no mínimo, preocupante. Algumas escolas no Reino Unido estão a tirar os relógios analógicos das salas de aula, e a instalar na vez destes dispositivos digitais, supostamente para facilitar a vida dos alunos, que já estão tão habituados ao digital, que usar um relógio mais tradicional, principalmente na altura de exames, seria um stress desnecessário. Esta notícia lançou o debate: será que, na era tecnológica, ainda é importante que as crianças aprendam a ver as horas num relógio analógico? Tendo em conta que metade das crianças já não o sabe fazer (se têm duvidas, vejam um vídeo que fizeram o ano passado), sim, é, mais do que nunca!
Na turma em que eu andava na primária, havia uma regra em sala de aula que era inquebrável: nenhuma criança podia usar relógios digitais. Qualquer aluno que entrasse naquela sala de aula com um era obrigado a tirá-lo e colocá-lo numa caixa na secretária da professora, sendo que só o tinha de volta no final do dia. Além disto, os pais eram estimulados a fazer o mesmo em casa, a colocar os relógios digitais de parte e a perguntar frequentemente as horas aos filhos. Claro que, em casa, a professora já não tinha controlo sobre se esta medida pedagógica era cumprida ou não, mas a maior parte deles parecia cumprir, porque os seus filhos demonstravam saber ler as horas.
Nos dias de hoje, esta medida talvez fosse um bocado extrema. Vivemos numa época em que os professores têm medo de tomar qualquer atitude mais extrema e, no dia a seguir, virem os pais atrás reclamar, a dizer que pode traumatizar o seu filho (como alguém que acompanha o mundo da educação de perto, sim, isto acontece mesmo, não é exagero). Já estou a imaginar "mas o meu filho não pode usar o que quer agora?". Dão-se tablets para a mão como se fossem brinquedos, e todas estas tecnologias, a longo prazo, estão a ter efeitos nocivos nas crianças: há quem já tenha mais dificuldades a aprender a segurar numa caneta, quanto mais ver as horas.
Aqui em Portugal, ainda se aprende a ver horas num relógio analógico mas, fora da sala de aula, as crianças estão a perder exposição aos mesmos. Sejamos sinceros, quantos de nós os utilizamos? Eu falo por mim, antes era uma amante de relógios de pulso, mas desde que entrei em Enfermagem, em que não se podem usar qualquer tipo de adorno no estágios, que desenvolvi o hábito de ver as horas pelo telemóvel. Em minha casa ainda existem relógios tradicionais, mas imagino que noutras casas já não se deem ao trabalho de colocar. Nós, adultos, já sabemos ver, e quem aprende não esquece, mas e as crianças?
Mas qual é problema do digital, afinal? O problema é que com o digital as crianças só têm noção do presente- não conseguem perceber quanto tempo já passou ou quanto tempo falta para o fim de determinada tarefa. Com um relógio analógico, conseguem compreender melhor a passagem do tempo, fazendo com que consigam situar-se melhor e perceber em que medida o momento que estão a viver se encaixa entre o passado e o futuro. Conseguem compreender também quanto tempo falta para o fim de algo- como as aulas, por exemplo- e planear as suas tarefas de acordo. Como o nosso próprio planeta, este é redondo e tem o seu próprio ciclo, o que facilita a perceção dos miúdos das 24 horas de um dia.
O tempo é um conceito abstrato para os mais pequenos e, ao dar-lhes relógios digitais, não lhes estamos a facilitar a vida, estamos a fazer com que seja mais difícil para eles compreender este conceito abstrato. Não importa os dispositivos tecnológicos que eles possuírem no futuro, esta é uma competência da qual precisarão sempre.






