Nunca, em 20 anos de existência, pensei assistir a tamanha tragédia. Ontem vi logo que algo de muito errado se passava quando, por volta do final da tarde, o céu ficou de uma cor estranhamente alaranjada, começou a escurecer, e o cheiro a fumo e a queimado tornou-se de tal forma forte que, mesmo com as janelas e portas fechadas, alastrou-se rapidamente pela casa toda. Se eu nem sequer estava numa zona próxima de incêndios e senti isto, nem quero imaginar o terror que se viveu nos locais que estavam a ser devastadas pelo fogo. Durante todo o tempo estive em segurança, mas não deixei de sentir medo e horror ao constatar que à minha volta estava tudo em chamas.
Acreditei, sinceramente, que depois da tragédia de Pedógrão tivessem aprendido a lição. Achei que a devastação, o desespero, a agonia das pessoas, as mortes, os lamentos serviriam para alguma coisa. Mas, pelos vistos, bastaram apenas quatro meses para voltar a repetir os erros do passado.
Existem vidas perdidas, famílias destruídas, pessoas sem casa, quilómetros de património florestal perdidos e que vão demorar anos a ser recuperados. E ainda há quem encare isto de forma leviana. O primeiro-ministro afirma " que situações destas se irão repetir", a ministra da Administração Interna não quer saber, preferia ir de férias. Há quem aproveite para fazer campanha e comece a culpar os governos anteriores. E, no meio disto tudo, ninguém faz nada.
Perdi a paciência. Apetece-me gritar " IDE TODOS À MERDA". Não quero saber de discussões políticas, se a culpa é deste governo ou do anterior, se este ou aquele se devia demitir... Se em vez de estarem aí a apontarem o dedo, fizessem realmente alguma coisa, nada disto teria acontecido. As vossas condolências, palavras de solidariedade, promessas e abracinhos aos cidadãos não vão trazer de volta aquilo que se perdeu. Parem de encarar isto como algo normal, inevitável, que irá acontecer muitas vezes nos próximos anos. Por amor de Deus, Portugal está todo a arder!
O terrorismo tem mil caras. Aquilo que aconteceu em Portugal não foi apenas fruto das alterações climatéricas. Foi fruto da crueldade do ser humano, de pessoas doentias que retiram prazer dos incêndios e do sofrimento que estes causam. Pessoas mais cruéis que estas são aquelas com poder para impedir isto, mas estão demasiado absortas nas suas vidas e nos seus próprios interesses para fazer alguma coisa.




