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13.6.16

O problema de perguntar "O que queres ser quando for grande?"


Sempre achei estúpida a mania de os adultos fazerem a famosa pergunta " O que queres ser quando for grande?" a uma criança que ainda mal sabe falar. É uma parvoíce, no mínimo, e no máximo uma forma de tortura a menores. E acho ainda mais estúpido  existirem adultos que levam a resposta da criança mesmo a sério, usam mesmo a resposta da mesma como medidor da sua inteligência: se uma criança responde " não sei", "pobre coitada, não vai dar gente na vida" , mas se responde " Quero ser professor" , " Ah, que prodígio, esta criança já tem um objetivo de vida definido".

Nunca fui daquelas crianças que, desde muito nova, já sabia o que queria ser. Aliás, até tinha um pouco de inveja dessas crianças que diziam " quero ser médica" desde pequena, e eram logo o orgulho dos pais e professores/educadores. Ao início, quando me perguntavam, " O que queres ser quando fores grande", eu respondia um " Não sei" e, embora recebesse respostas do tipo " Quando fores grande saberás", eu via no olhar dessas pessoas que pensavam que eu era menos inteligente em relação às crianças que tinham a resposta na ponta da língua.

Farta de receber esses olhares troçadores dos adultos, comecei a pensar "seriamente" ( dentro daquilo que a minha inocência o permitia), o que queria ser, mas todos os dias queria ser algo diferente: já quis ser bailarina, professora, cantora, cabeleireira, até cuidadora de golfinhos já quis ser, imagine-se  ( esta última foi devido ao facto de eu ter ido uma vez ao Zoomarine, num passeio da creche).  O que me fazia mudar de profissão de um dia para o outro era perceber que não tinha talento para essa: por exemplo, uma vez decidi que queria ser artista, mas rapidamente me apercebi que o desenho não era o meu forte. Andava eu tão absorta nesta busca incessante pelo meu talento, com apenas 5 anos,que nem me passou pela cabeça que que este ainda haveria de nascer, quando eu aprendesse a ler e a escrever: só muito mais tarde é que eu descobri que tinha jeito para escrever.

Na minha opinião, perguntar " O queres ser quando for grande?" a uma criança que nem para o 1º ano foi ainda é colocar precocemente pressão e expetativas nesta. Ao contrário de que filmes, livros, psicólogos e professores fazem crer aos pais, são muito poucas as crianças que sabem quase logo desde a nascença o que querem ser. A maior parte das crianças, se lhe fizerem esta pergunta, vão dizer coisas como " Quero ser príncipe/princesa." , ou então vão dizer " quero ser bombeiro", mas no dia a seguir já querem ser outra coisa qualquer.

A maior parte de nós não descobre os seus talentos logo em criança. A maior parte das pessoas não descobre que tem jeito para desenhar, por exemplo, em pequenas, e aos 17/18 anos já são grandes artistas, com um futuro promissor pela frente.  Se assim fosse, não haveriam alunos do  Ensino Secundário indecisos em relação ao que seguir, e certamente também não haveriam universitários a mudar ou desistir de cursos. Muitos de nós só descobre os seus talentos aos 20/25 anos ou até aos 30, alturas da vida em que ganhamos a nossa independência e começamos a perceber quem somos verdadeiramente.

Com este post, não estou a querer dizer para pararem de fazer esta pergunta. Podem e devem fazer esta pergunta às crianças, para estimulá-las a descobrirem os seus talentos e a conhecerem-se. Estou a dizer para não estarem sempre a fazer a mesma pergunta às crianças, em conversas de família, vizinhos, professores e mesmo em testes, trabalhos da escola,... E acima de tudo, por amor de Deus, não façam disto uma competição da criança que sabe o que quer ser primeiro. Deixem as crianças viverem a sua infância e descobrirem por elas próprias aquilo que querem ser, sem pressões de terceiros. Têm uma vida toda pela frente ( sim leram bem, uma vida toda pela frente, se tomarem a decisão errada quando chegarem a universidade, podem sempre mudar) para decidirem aquilo que querem ser.

E vocês? O que acham desta pergunta frequentemente colocada às crianças?