Fiquei obcecada pelo livro "180 Seconds" (li por sugestão da Sofia, obrigada. Leiam-no também já agora!) a partir de uma das primeiras cenas: duas pessoas completamente desconhecidas mantêm contacto visual durante 3 minutos e ficam atraídas uma pela outra de uma forma louca. É algo fascinante, no mínimo.
Manter contacto visual com uma pessoa é uma atitude inesperadamente muito íntima. Todos os dias cruzamo-nos com várias pessoas, temos que interagir com muitas delas, algumas vezes voluntariamente e outras vezes por obrigação, o que exige que tenhamos algum contacto visual com elas, pelo menos durante alguns segundos. Muitas vezes, até evitamos olhar diretamente para elas. Se pensarmos bem, são poucas as pessoas a quem concedemos o privilégio de o fazer por mais de que meros segundos. A não ser que a situação o exija (como, por exemplo, uma entrevista de emprego), evitamos ao máximo fazê-lo. E mesmo nesses casos, costumamos olhar diretamente, desviar o olhar, e voltar a olhar, como que a fazer uma pausa para evitar que a relação visual fuja dos limites.
Isto acontece porque partilhar um olhar com alguém pode ser muito íntimo e, por vezes, demasiado intenso. Pode quebrar barreiras que nos esforçamos tanto por construir, pode revelar verdades que nos esforçamos tanto por esconder, pode revelar as nossas verdadeiras intenções apesar de as nossas palavras estarem a apontar o contrário. Mais aterrorizante que tudo, pode ameaçar revelar a nossa essência por detrás de todas as máscaras que usamos diariamente. Já se perguntaram porque é que, quando queremos saber se alguém nos está dizer a verdade, exigimos "olha-me nos olhos"? É esta a razão.
Eu não acredito em amor à primeira vista, mas acredito em atração à primeira vista. E, apesar de não acreditar que nos podemos apaixonar por alguém em apenas meros segundos, acredito que podemos apaixonarmo-nos por olhares. Não só de pessoas com quem ambicionamos ter relações amorosas, mas também com pessoas com quem desejamos desenvolver uma amizade por sentirmos tanta empatia nos seus olhares.
Eu apaixono-me por olhares. Por olhares que dizem "não sei nada sobre ti, mas sei que vamos ser grandes amigos". Por olhares que gritam "quero conhecer-te melhor". Por olhares que compreendem, que dizem "eu também". Por olhares que me dão confiança quando não a sinto. Por olhares que parecem um porto seguro e que me fazem desejar afundar-me neles para nunca deixar de me sentir assim tão feliz.
Dizem que os olhos são as janelas da alma. Também são portas. Quando nós passamos por elas, entramos na casa da outra pessoa. É-nos permitido entrar em algumas divisões, que vamos explorando e através delas tentando absorver o máximo de informação que conseguimos acerca da pessoa. E, dependendo do quão confortável o dono da casa se sente connosco, vai destrancando outras divisões e vamos ganhando acesso a armários, gavetas e todas as coisas que normalmente estão bem escondidas dos outros. O acesso livre ao mundo do outro ganha-se através de confiança. Quando atingimos um patamar alto de confiança, ganhamos livre acesso para entrar e sair sempre quisermos. Às vezes este processo demora meses ou talvez anos. Outra vezes, demora apenas segundos. É por isso que os olhares são tão apaixonantes.






